Estamos considerando como praticas profissionais, as diferentes abordagens de trabalho nas áreas de pesquisa geográfica que os geógrafos do IBGE adotaram ao longo do período de sua existência. Para isso, é necessário que se entenda que a grande divisória que separa as práticas profissionais dos geógrafos físicos, dos que trabalham com Geografia humana é, evidentemente, um fator inibidor no diálogo profissional, por mais que se pregue o contrário.

Os processos de aprendizado na universidade, já nos primeiros anos, tendem a dicotomizar essas duas áreas, inclusive com abordagens distintas quanto ao conhecimento matemático e estatístico, que sempre foram mais cobrados nos segmentos da Geografia física do que na humana. A exceção ocorreu durante a década de 70 no contexto dos métodos quantitativos, mas que não chegou sequer a modificar a tendência conhecida, pois as experiências com a quantificação nos  anos 70 exigiam equipamento caro e mão de obra especializada, além de uma grande dose de boa vontade por parte dos professores e dos alunos, já que ainda era difícil perceber que aqueles métodos poderiam trazer grandes modificações no conhecimento geográfico fora do campo do planejamento governamental.

No contexto do IBGE, talvez por conta da forte influência de Francis Ruellan, que era geomorfólogo, mas que tinha por imposição de seu contrato do professor na Universidade do Brasil, lecionar e transmitir qualquer campo do saber geográfico para seus alunos e para os técnicos do IBGE, essa dicotomia não se fez sentir com intensidade, mas ainda assim era possível perceber que os melhores “alunos” tendiam a se especializar em  Geomorfologia. Heldio Lenz, Pedro Geiger, Miguel Alves de Lima, Alfredo Porto Domingues, Lúcio de Castro Soares foram alguns desses e apenas Pedro Geiger migrou para os estudos econômicos e sociais nos anos 50.

Um outro ponto importante a considerar eram as atividades típicas de planejamento que o IBGE sempre teve ao seu encargo, como no caso da regionalização. Conjunto de estudos que normalmente envolvem as duas áreas, necessitando da experiência de um pesquisador eclético que conheça perfeitamente os grandes traços físicos e humanos de uma região para poder realizar o trabalho de recorte regional.

É possível argumentar que, por sua missão institucional o IBGE seus profissionais de Geografia sempre tenderam mais ao ecletismo do que a especialização. Daí o grande poder da área de regionalização, quando confrontada com os especialistas dos campos sistemáticos, principalmente nas primeiras décadas de atividade. A força dos estudos sistemáticos na área de Geografia somente toma força com Michel Rochefort nos anos 60 no campo da Geografia urbana, embora os ensinamentos de Leo  Waibel nos anos 50 em Geografia agrária também já orientavam os geógrafos regionais nessa direção, mas é preciso assinalar que os grandes estudos orientados por Waibel neste campo, ainda possuíam uma forte conotação regional, principalmente os vinculados ao estudo do habitat rural.

Foram, fundamentalmente, os processos de industrialização e urbanização no sudeste brasileiro nos anos 60, as grandes arenas de pesquisas dos geógrafos especialistas do IBGE.

Os nove  grandes temas analisados: 1- Regionalização, 2- Ocupação do Território e Habitat, 3- Industrialização, 4- Urbanização,     5- Modernização da agricultura,  6-Caracterizações Ambientais (6. 1 – Geomorfologia, 6.2 – Climatologia, 6.3 – Biogeografia) e 7- Diagnósticos Sócio – Ambientais Integrados,  acompanharam a evolução dos estudos geográficos no IBGE e definiram tendências em escala nacional para certos trabalhos, principalmente no que tange aos estudos de regionalização, principal área de trabalho da Geografia do órgão.

Na parte final dessa seção foi introduzida uma avaliação das atividades de geoprocessamento. Atividades essas que envolvem várias diretorias e que viabilizarão bases geo-referenciadas para inúmeras áreas e pesquisas da agência, auxiliando nos planejamentos dos censos, campanhas estatísticas, previsão de safras agrícolas, acompanhamento da evolução das malhas de setores censitários, de bairros urbanos, distritos, municípios, micro e meso regiões, unidades federadas e grandes regiões. Além de garantirem uma maior precisão cartográfica nas cartas editadas pelo IBGE. Além disso, o geoprocessamento está atualmente bem disseminado nas universidades, em virtude da popularização dos softwares de mapeamento automatizado e da utilização do GPS.

1 – Regionalização

Ao se observar panoramicamente a atuação da Geografia do IBGE verifica-se que os estudos de regionalização sempre foram a razão de ser dessa área na casa. Analisando-se a cronologia bibliográfica sobre o assunto é possível perceber que os processos de regionalização sempre acompanharam a trajetória do órgão e determinaram inclusive as formas de apresentação tabular dos censos.

O estabelecimento em 1938 pelo Conselho Nacional de Estatística de uma regionalização baseada na divisão em uso pelo Ministério da Agricultura e que serviu como base para o censo de 1940 foi o ponto de partida para os estudos de Fábio de Macedo Soares Guimarães objetivando definir uma nova regionalização para o Brasil. Seu artigo publicado na RBG ano 3, n. 2 de abr. /jun. de 1941 tornou-se um clássico e sua definição para uma divisão única foi acatada pelo governo federal, conforme  nos informa os dados da cronologia dos atos administrativos e legais do IBGE.

1939 07 25 – Resolução n. 63 da AG/CNG – Determina o estudo da divisão regional do Brasil e das suas unidades federadas e a elaboração de uma obra de divulgação sobre a região amazônica em geral e o rio Amazonas em especial.

1941 07 14 –  Resolução n. 72 da AG/CNG – Fixa o quadro de divisão regional doBrasil,para fins práticos, promove a sua adoção pela Estatística Brasileira e dá outras providências.

1941 07 24 –  Resolução n. 225 da AG/CNE – Manifesta o aplauso do Conselho à nova Divisão Regional do Brasil fixada pelo Conselho Nacional de Geografia e dá providências  a respeito.

O artigo de Fábio de Macedo Soares analisou a necessidade de uma regionalização que tivesse uso estatístico e que apresentasse um alto grau de estabilidade ao longo dos anos para fins de comparabilidade espacial e por isso optou por uma divisão que desse preferência às características naturais das regiões delimitadas, embora argumentando que já havia uma tendência, ainda que incipiente, em definir regiões preferencialmente por critérios econômicos, com na divisão do Conselho Técnico de Economia e Finanças adotado em 1939 por ocasião da Conferência nacional de Economia (Guimarães, 1941:363-364).

O plano tabular do censo de 1940, primeiro censo organizado após a criação do Conselho Nacional de Geografia (CNG) já apresentava no volume Brasil uma divisão em regiões fisiográficas (Norte, Nordeste, Este, Sul e Centro-Oeste) mas suas unidades federadas ainda eram apenas subdivididas em municípios.

Novas determinações da assembléia geral do CNG durante o início dos anos 40 orientaram estudos para demarcação de zonas fisiográficas nas unidades da federação, regionalizando conjuntos de municípios de características homogêneas.

1942 07 09 –  Resolução n. 124 da AG/CNG – Sugere uma nova divisão das unidades  federadas em zonas fisiográficas, para uso da Estatística Brasileira, e baixa provisoriamente e em segunda aproximação, a divisão regional do Brasil.

Esta resolução implicou em estudos de regionalização nas unidades regionais estabelecidas e o resultado desses trabalhos resultou na coleção Divisão Regional do Brasil, que para cada região, estabeleceu uma subdivisão em sub-regiões e zonas, que foram incorporadas aos planos tabulares dos censos seguintes.

Nos censos de 1950 e 1960 as regiões fisiográficas foram mantidas, com alteração no nome de uma região (Este foi substituída por Leste) mas cada unidade federada foi também subdividida em zonas fisiográficas com os seus municípios correspondentes.

1945 07 13 – Resolução n. 143 da AG/CNG – Estabelece a divisão regional do país,mediante agrupamento dos municípios brasileiros, e dá providências para a generalização do seu uso.

Nos anos de 1967 e 1968 iniciou-se no âmbito da Divisão de Geografia os estudos para a definição da nova regionalização em espaços homogêneos e polarizados (IBGE, 1967a e 1967b). Além dessas obras, foi também organizado um estudo abrangente em convênio com o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) para analisar a estrutura espacial brasileira, (IBGE, 1968b) coordenado por uma equipe que contava com Marília Veloso Galvão (que tinha assumido a chefia da Divisão de Geografia e que estava sendo elevada a categoria de Departamento), Lysia Bernardes (chefe anterior da Divisão de Geografia e que estava se transferindo para o IPEA, por conta desse projeto), Pedro Geiger, Elza Keller, Speridião Faissol, além de terem contado com a consultoria de Michel Rochefort nas fases iniciais do processo.

O Subsídios à Regionalização  trabalhou com sete segmentos dos estudos geográficos passíveis de serem regionalizados (Quadro Natural, População, Regiões Agrícolas, Indústrias, Transportes, Atividades Terciárias e Centralidade) e praticamente envolveu todo o quadro técnico da Divisão de Geografia por dois anos, servindo efetivamente de subsídios à institucionalização de uma nova sistematização de regionalizações levada a efeito pela Geografia do IBGE a partir do final dos anos 60.

Essas novas questões sobre regionalização estavam na pauta da Geografia do IBGE por conta das recomendações definidas na XXIII Assembléia Geral do Conselho Nacional de Geografia através da resolução 595 de 17 de junho de 1966 visando subsidiar uma regionalização que substituiria as regiões fisiográficas.

O governo federal após o golpe militar de 1964 estava preocupado com a espacialização do desenvolvimento econômico e via com grande interesse pesquisas que pudessem organizar o território brasileiro ou dar subsídios para este processo.

No caso das duas obras consideradas como iniciadoras do processo, os textos introdutórios, o dos espaços homogêneos escrito por Pedro Geiger, e o de espaços polarizados escrito a quatro mãos por Roberto Lobato Corrêa e Fany Davidovich são peças  reveladoras do pensamento geográfico regional da segunda metade dos anos 60 (IBGE, 1967a, 1967b).

Os Espaços Homogêneos

O grupo de geógrafos que trabalhou com o esboço preliminar das regiões homogêneas foi coordenado por Pedro Pinchas Geiger, com textos redigidos por Lysia Bernardes, Pedro Geiger e Nilo Bernardes e foram revistos por Elza Keller, Fany Davidovich e Ruth Magnanini.

A definição e delimitação dos espaços homogêneos foi trabalhada por um conjunto de 13 geógrafos ( Lysia Bernardes, Pedro Geiger, Nilo Bernardes, Orlando Valverde, Speridião Faissol, Marília Galvão, Edmon Nimer, Roberto Corrêa, Fany Davidovich, Aluísio Duarte, Ignez Barbosa, Eugênia Egler, Olindina Mesquita).

A regionalização em espaços homogêneos servia para duas grandes vertentes a primeira objetivando o planejamento governamental em áreas com as mesmas características, a segunda garantindo uma perfeita compreensão espacial do território nacional através da divulgação dos dados estatísticos pela inclusão dessa regionalização no plano tabular dos censos do IBGE. Nesse período, ainda é possível perceber que a denominação de muitas micros apresentavam características ambientais que as distinguiam, podendo ser componentes do relevo (Microrregiões  Encosta Ocidental Paulista, Chapadões do Paracatu, depressão Periférica Setentrional, Serra de Baturité, Chapada Diamantina Meridional), vales de rios ( Microrregiões Médio Rio da Velhas, Alto Solimões, Médio Amazonas, Baixo Jaguaribe, Baixo-Médio São Francisco), vegetação ( Microgerriões Campos de Guarapuava, Mata de Cataguases, Pantanais, Campos de Vacaria e Mata de Dourados).

Para o recenseamento econômico de 1975, o Departamento de Geografia, possivelmente sobre orientação direta de Speridião Faissol, elaborou uma regionalização em Mesorregiões Homogêneas pelo processo de agregação de Microrregiões, que foi adotado pelos planos tabulares posteriores e pela nova regionalização em Meso e Microrregiões Geográficas de 1992. (Infelizmente esse material foi perdido no prédio da Rua Equador (Santo Cristo) em função de uma infestação de inseticida por uma dedetização mal sucedida em 1985). Uma versão condensada em inglês foi publicada no livro de contribuições do IBGE à 23a Assembléia da UGI em Moscou (IBGE, 1976c :5-16).

No final dos anos 80 foi iniciado outro processo de regionalização de espaços homogêneos sob nova ótica, priorizando os centros urbanos e, de certa forma, justapondo-se aos trabalhos de regionalização de espaços polarizados, pois suas denominações são, em muitos casos, semelhantes. Alguns exemplos poderão ilustrar o problema. A antiga micro de São Paulo Estâncias Hidrominerais Paulistas tornou-se micro de Amparo (centro sub-regional), a micro de Encosta Ocidental da Mantiqueira Paulista tornou-se micro de São João da Boa Vista (centro sub-regional), a micro de Médio Rio das Velhas tornou-se micro de Pirapora. O município de Caraguatatuba que pertencia a micro Costa Norte Paulista tornou-se micro de Caraguatatuba e assim por diante…

Os estudos dessa nova divisão iniciaram-se em 1987 sob a coordenação de Aluízio Capdeville Duarte e a gerência de Onorina Fátima Ferrari e adotada pelo Sistema Estatístico Nacional em 1990, fazendo parte do plano tabular do recenseamento de 1991.

Trabalharam neste projeto 15 geógrafos, uma estatística, um engenheiro encarregado do processamento de dados.

Os Espaços Polarizados

O trabalho precursor dos estudos sobre polarização foi orientado por Michel Rochefort e coordenado por Lysia Bernardes em 1964 O Rio de Janeiro e sua Região (Bernardes L., 1964) e testou sistematicamente em campo o método Rochefort de hierarquização de uma rede urbana e delimitação de seu espaço de influência. O segundo grande projeto neste campo, reuniu um grupo de 24 geógrafos, coordenados por Pedro Geiger,  trabalhando com os espaços polarizados em escala nacional, para elaborar o diagnóstico Esboço Preliminar de Divisão do Brasil em Espaços Polarizados,  também coordenado por Pedro Pinchas Geiger, com textos redigidos por Fany Davidovich, Ruth Magnanini, Maria Francisca Cardoso, Roberto Lobato Corrêa, Maria Emília Castro Botelho, Ignês Teixeira Guerra, Ceçary Amazonas, Írio Barbosa, Rosa Fucci, Luís Antônio Ribeiro, Hilda da Silva, Jacob Binsztok, Eugênia Egler, João Rua, Sônia Alves de Souza, Elizabeth Gentile, Marta Regina Brito, Olga Maria Buarque, Lenice Araújo, Edmon Nimer, Elisa Mendes de Almeida, Carlos Alberto serra, Maria Tereza Bessa e Pedro Geiger (IBGE, 1967b).

A regionalização em espaços polarizados passou a suprir uma demanda do planejamento estatal na definição de pontos no território que seriam mais dinâmicos que outros. A influência de Michel Rochefort é claramente sentida nas primeiras fases neste segmento do trabalho geográfico (IBGE,1967b) e também no projeto do Subsídios à Regionalização (IBGE, 1968b), onde o capítulo de Centralidade foi desenvolvido por Roberto Lobato Corrêa (Corrêa,1968).

Na década de 70, a influência de Rochefort foi sendo gradativamente substituída pelos trabalhos da escola anglo-americana. A mudança de enfoque é bem percebida,  quando da edição do segundo grande trabalho deste segmento, em escala nacional, o Divisão do Brasil em Regiões Funcionais Urbanas (IBGE, 1972). Coordenado por Pedro Geiger nas primeiras fases das formulações metodológicas, mas concluído por Elza Keller, que foi responsável pela compatibilização dos estudos e dos mapeamentos finais e pelo texto introdutório. No projeto trabalharam além de dos dois, mais sete geógrafos de várias especialidades como Amélia Alba Nogueira (geomorfóloga), Dulce Alcides Pinto, Aluízio Capdeville Duarte, Hilda da Silva e Maria Rita Guimarães (Regional), José César Magalhães (energia) e Fany Rachel Davidovich (urbana).

Os estudos sobre espaços polarizados tornaram-se prioritários durante meados da década de 70, com estruturação de grupos de trabalho específicos, inclusive com proposições metodológicas mais novas (IBGE, 1976 , 1976)*. Os dois geógrafos que mais estudaram essas metodologias foram Roberto Lobato Corrêa e Aluízio Capdeville Duarte coordenando uma equipe com uma socióloga, Cléa Sarmento Garbaio e mais três geógrafos, Ney e Lourdes Strauch e Maria Thereza Bessa de Almeida.

A ênfase da época eram os estudos baseados na teoria das localidades centrais de Walter Christaller da década de 30 na Alemanha e retrabalhada por geógrafos ingleses e americanos, mas com algumas leituras de franceses como o economista Charles Boudeville e o geógrafo Etienne Juillard.

Este esforço metodológico, que pode ser avaliado no segundo artigo do grupo (IBGE, 1976b), gerou a terceira fase da divisão de espaços polarizados brasileiros realizada pela Geografia do IBGE o Região de Influência das Cidades, coordenado por Roberto Lobato Corrêa e tendo como equipe técnica 14 geógrafos, Aluízio Capdeville Duarte, Agustinho Rocha, Ayrton Almada, Estácio Arruda, Helena Zarur Lucarelli, João Baptista de Mello, Lourdes Strauch, Lúcia de Oliveira, Luís Alberto Nascimento, Maria Rita La Rocque, Maria Thereza Bessa de Almeida, Nilo David Mello, Onorina Ferrari e Sulamita Hammërli e um economista Ruben Magalhães.

O trabalho, concluído em 1983, acabou sendo muito utilizado como referência em função de seus mapas e suas tabelas de ordenação dos centros por muitas agências governamentais e organizações privadas, mas somente foi publicado em co-edição com o Ministério de Habitação e Urbanismo em 1987 (IBGE / MHU, 1987).

A última fase dos estudos de espaços polarizados data da década de 90 foi trabalhada por uma equipe coordenada por Marília Carvalho Carneiro entre 1993 e 1997, quando se aposentou, e por Luiz Alberto dos Reis Gonçalves, na fase final entre 1997 / 1998 e contou com uma equipe de oito geógrafos (Aurélia Lopes da Silva, Cleber de Azevedo Fernandes, Eliane Ribeiro da Silva, João Baptista ferreira de Mello, Luiz Carlos de Carvalho Ferreira, Maria Mônica Vieira C. O’Neill, Rogério Botelho de Mattos, Solange Cardoso Barros,  mais a assessoria computacional da Diretoria de Informática do IBGE através da analista Viviane Narducci Ferraz que organizou os dados, gerando as tabelas de ordenação dos centros urbanos. O trabalho está em fase de publicação, mas já é possível ter acesso a ele na base de dados do IBGE.

A evolução dessas quatro fases na determinação das principais redes urbanas do Brasil mostrou a transformação de um país ainda agrário na década de 60, para uma urbanização sustentada pela industrialização na década de 70 e alcançando na década de 90, altos estágios de urbanização comandada pelo setor terciário: com a expansão do comércio, pela proliferação dos centros de compras (shopping centers) e pelo avanço do processo de franquia de produtos (franchising), que ao estabelecerem essas novas redes de estabelecimentos, tornaram-se os carros chefe das atividades de distribuição varejista, e pela ampliação do setor de serviços, onde as atividades financeiras assumiram a liderança do segmento.

As Análises Regionais

Será igualmente importante abrir um espaço para a descrição dos trabalhos que, após o estabelecimento do processo de regionalização, analisavam algumas características físicas, humanas e econômicas das regiões estabelecidas.

A primeira coleção de análises denominou-se Divisão Regional do Brasil e foi elaborada entre 1948 e 1950 ( Centro Oeste-1948, Nordeste e Sul-1949, Leste e Norte-1950). Eram obras pequenas que enfatizavam uma subregionalização nas regiões estabelecidas pelo estudo de Fábio de Macedo Soares Guimarães e que não apresentavam nenhuma indicação de autoria pessoal. Suas análises caracterizavam igualmente os aspectos físicos, humanos e econômicos desses sub-espaços.

O segundo projeto de análises regionais, iniciou-se em 1959, mas já sobre outras bases, pois sua estrutura editorial contemplava coordenadores de projeto (cada livro de uma região era um projeto fechado) e equipes de autores que recebiam crédito autoral por capítulo organizado. De certa forma essa coleção foi a primeira a ser realmente considerada como uma obra geográfica para o grande público, principalmente para o segmento educacional de segundo grau e  universitário.

Seu primeiro número de 1959, sobre a região Norte foi fortemente influenciado pelas informações geradas ainda pela Enciclopédia dos Municípios Brasileiros e foi organizado por Antônio Teixeira Guerra, que além de estar no comando da Divisão de Geografia do CNG, era também um especialista de Geomorfologia da Amazônia. A estrutura dos capítulos estava assim organizada:

Introdução- Arthur César Ferreira Reis, Fitogeografia da região amazônica- Félixberto Camargo e Antônio Teixeira Guerra, Geologia, Relevo e Litoral- Antônio Teixeira Guerra, Clima- Marília Velloso Galvão, Vegetação- Edgar Kuhlmann, Hidrografia- Lúcio de Castro Soares, Solos e Utilizações Agrícolas- Antônio Teixeira Guerra e Orlando Valverde, População e Povoamento- Catharina Vergolino Dias e Manuel Maurício de Albuquerque, Indústria Extrativa- Catharina Vergolino Dias e Antônio Teixeira Guerra, Agricultura- Catharina V. Dias, Estrutura Econômica e Regime de Propriedades- Catharina V. Dias e Carlos Goldemberg, Organização Social- Catharina V. Dias, Transportes- Antônio T. Guerra e Energia- José César de Magalhães.

É interessante perceber que apesar de estar em pleno período da luta entre os grupos Zarur (já falecido em 1957, mas substituído por Speridião Faissol na Direção do CNG) e Fábio, a participação de Orlando Valverde numa co-autoria com Antônio T. Guerra é importante para estabelecer separações entre os problemas de ordem pessoal e o institucional. Apesar das inimizades, o trabalho era feito por quem possuía melhor qualificação. O exemplo de Catharina, uma paraense que conhecia muito bem sua região no que dizia respeito aos aspectos de ocupação econômica e ao ambiente cultural, mostra bem o aproveitamento da mão de obra técnica daquela época no CNG.

O segundo volume da série, publicado em 1960, trabalhou com a região Centro Oeste e foi organizada por Marília Vellozo Galvão e sua estrutura de capítulos estava distribuída da seguinte maneira:

Introdução- Speridião Faissol, Geomorfologia- Pedro Pinchas Geiger, Hidrografia-Carlos C. Botelho, Clima- Marília Galvão, Vegetação- Edgar Kuhlmann, População e Povoamento- Manuel Maurício de Albuquerque,  Pecuária- Maurício Coelho Vieira,  Agricultura- Elvia Roque Stefan, Indústria Extrativa- Elvia Roque Stefan, Energia-  José César de Magalhães, Núcleos Urbanos- Maria Magdalena Vieira Pinto, Brasília: a nova capital- Maria Magdalena Vieira Pinto e Transporte- Ney Rodrigues Inocêncio.

O terceiro, de 1962, estudou a região Nordeste, analisando separadamente o espaço correspondente ao Meio Norte e teve dois organizadores, Maria da Glória Hereda e Alfredo Porto Domingues. Sua estruturação estava assim apresentada:

Introdução- Lindalvo Bezerra dos Snatos, Litoral – Interior- Celeste Rodrigues Maio e Alfredo Porto Domingues, Hidrografia- Elvia Roque Stefan, Clima- Lindalvo Bezerra dos Santos, Vegetação- Antônio Luís Dias de Almeida, José Henrique Millan e Maurício Coelho Vieira, Povoamento- Manuel Maurício de Albuquerque, População- Marieta Mandarino Barcellos, Pecuária- Ney Julião Barroso, Agricultura- Jorge Xavier da Silva, Ocupação Agrícola- Lilia Camargo Veirano, Extrativismo Vegetal- Fany Haus Martins, Indústria Extrativa Animal- Maria da Glória Hereda, Indústria  Extrativa Mineral-  Elvia Roque Stefan, José César Magalhães e Maria da Glória Hereda, Energia- José Carneiro Felipe Filho, Estrutura Urbana- Lilia Camargo Veirano,  Transporte- Ney Rodrigues Inocencio.

A região Leste foi editada em 1965, já sob a chefia de Lysia Bernardes na Divisão de Geografia, tendo como organizadores Maria Rita da Silva Guimarães e Aluízio Capdeville Duarte. A estruturação dos capítulos era:

Relevo-  Amélia Alba Nogueira, Hidrografia- Olindina Vianna Mesquita, Clima-  Marília Veloso Galvão e Edmon Nimer, Vegetação- Alceo Magnanini, População- Ariadne Soares Souto Mayor, Povoamento- Dulce Maria Alcides Pinto, Organização Urbana- Olga Maria Buarque de Lima, Formas de Povoamento Rural- Elvia Roque Stefan, Atividades Agropastoris- Aluízio Capdeville Duarte, Extrativismo Vegetal- Maria Magdalena Vieira Pinto, Recursos Extrativos Minerais- Marília Veloso Galvão e Aluízio Capdeville Duarte, Implantação Industrial- José César de Magalhães e  Grandes Eixos de Circulação-  Haidine da Silva Barros.

Em 1968, já com Marília Veloso Galvão chefiando o novo Departamento de Geografia, a região Sul foi editada em dois volumes separados, o Tomo I que enfocava a parte física foi organizado por Delnida Martins Cataldo e Aluízio Capdeville Duarte e o Tomo II sobre a parte humana e econômica coube a Aluízio Capdeville Duarte.

A estruturação do Tomo I estava assim distribuída:

Introdução- Nilo Bernardes, Geomorfologia- Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, Hidrografia- Olindina Viana Mesquita, Clima- Carlos Augusto Figueiredo Monteiro,  Vegetação- Dora Amarante Romariz e Solos-  Dora Amarante Romariz.

O Tomo II estava dividido em:

Povoamento- Ariadne Soares Souto Mayor, População- Ruth Lopes da Cruz Magnanini, Atividades Agrárias- Aluízio Capdeville Duarte e Armely T. Maricato, Atividades Industriais- Ignês Costa Barbosa, Lourdes Manhães M. Strauch e Maria da Glória Hereda,  Circulação- Eloísa de Carvalho Teixeira e  Redes Urbanas-  Elza Coelho de Souza Keller.

A variedade de temas, inclusive com a introdução de alguns que refletiram as mudanças que estavam ocorrendo na economia brasileira foi o principal legado dessa coleção, considerada como um referencial bibliográfico importante nos cursos de Geografia durante as décadas de 60 e70.

A coleção seguinte, toda editada em 1977, foi a grande obra de referência da fase dos métodos quantitativos, já comentada  na Parte II, onde as duas correntes quantitativistas e não quantitativistas empreenderam uma luta surda na estruturação dos sumários das regiões e que acabou numa solução de compromisso onde sempre dois capítulos (agrária e urbana) teriam uma análise fatorial e de grupamento visando explicar suas estruturas espaciais. A análise da agrária trabalharia com a estrutura das microrregiões e a urbana com os municípios.

O planejamento e coordenação da coleção ficou sob a responsabilidade da chefe do Departamento de Geografia (DEGEO) Marília Veloso Galvão que nomeou um grupo de geógrafos da Velha Guarda como coordenadores temáticos de toda a coleção, Alfredo Porto Domingues, Elza Coelho de Souza Keller, Lindalvo Bezerra dos Santos, Lúcio de Castro Soares, Maria Magdalena Vieira Pinto e Pedro Pinchas Geiger.

A melhor prova dessa luta pode ser vista em dois exemplos de capítulos da coleção, um de sistema urbano da Região Norte redigido por Catharina Vergolino Dias , uma geógrafa que nunca se mostrou encantada com as novas técnicas, mas que nesse caso, trabalhou no sub-capítulo Características Estruturais das Cidades utilizando uma análise fatorial para definir uma tipologia urbana da região.

No caso do capítulo Atividade Agrária  da Região Sul,  a escolha de Orlando Valverde conflitou diretamente com a orientação de que os capítulos de agrária teriam um sub-capítulo denominado Organização Agrária ou equivalente que trabalharia com uma análise fatorial. Orlando não escreveu tal sub-capítulo e Rivaldo Pinto de Gusmão o fez, mas não ganhou o crédito de co-autoria no capítulo, como seria normal. O crédito de autoria dessa parte foi colocado nas notas de referência (IBGE, 1977e, p. 403).

A importância dessa coleção se deveu em mesclar diferentes enfoques para explicar as profundas modificações por que estava passando o espaço brasileiro na década de 70, mas infelizmente, o estigma da quantitativa, somado ao grande tamanho dos volumes afastaram a maior parte do público alvo, professores  e alunos do nível superior.

Profissionais como a geomorfóloga Amélia Alba Nogueira, o climatólogo Edmon Nimer, o especialista em energia José César de Magalhães trabalharam sobre seus assuntos em praticamente todos os volumes (César só foi substituído por Rosa Fucci no volume do Nordedeste, mas deu todo o apoio, pois Rosa era uma espécie de assistente sua). Isso representou para esses assuntos, uma visão integral do Brasil, sem os riscos de gerar certos caleidoscópios de pontos de vista, que pode ter ocorrido em assuntos que tiveram muitos autores nos cinco volumes.

Alguns tornaram-se clássicos como o do Sudeste, principalmente pelos capítulos de População organizado por Elza Keller, o de Indústria de Fany Davidovich e o do Sistema Urbano de Olga Buarque de Lima e Roberto Lobato Corrêa.

A estruturação de sumários e de autores foi assim apresentada:

Região Norte

Relevo- Amélia Alba Nogueira, Clima- Edmon Nimer, Vegetação- Edgar Kuhlmann, Hidrografia- Lúcio de Castro Soares, População- Elza Coelho de Souza Keller, Transportes- Myrian Guiomar G. C. Mesquita, Energia- José César Magalhães, Atividade Agrária- Maria Elisabeth C. de Sá Távora Maia, Indústria- Maria Teresa Bessa de Almeida e Elvia Roque Steffan, Sistema Urbano- Catharina Vergolino Dias.

Região Nordeste

Relevo-Amélia Alba Nogueira, Clima- Edmon Nimer, Vegetação- Edgar Kuhlmann, Hidrografia- Elvia Roque Steffan, População- Ruth Lopes da Cruz Magnanini, Transportes- Myriam G. C.C. Mesquita, Energia- Rosa Maria Fucci, Atividade Agrária- Solange Tietzmann Silva, Indústria- Dulce Maria Alcides Pinto e Mitiko Yanaga Une, Sistema Urbano- Hilda da Silva e Maria Emília T. de Castro Botelho.

Região Sudeste

Relevo- Amélia Alba Nogueira, Clima- Edmon Nimer, Vegetação- Maria Terezinha A.  Alonso,  Hidrografia- Carlos de Castro Botelho, População- Elza C. de Souza Keller, Transportes- Lúcia de Oliveira, Energia- José César de Magalhães, Atividade Agrária- Elza C. de Souza Keller,  Indústria- Fany Rachel Davidovich,  Sistema Urbano- Olga Maria Buarque de Lima e Roberto Lobato de Azevedo Corrêa.

Região Sul

Relevo- Amélia Alba Nogueira e Gelson Rangel Lima, Clima- Edmon Nimer, Vegetação- Maria Therezinha Alves Alonso, Hidrografia- Ruth Simões Bezerra dos Santos, População- Ruth da Cruz Magnanini e Ariadne S. Souto Mayor, Transportes- Lourdes Manhães de M. Strauch,  Energia- José César de Magalhães, Atividade Agrária-  Orlando Valverde (Rivaldo Pinto de Gusmão), Indústria- Armely  Therezinha Maricato e Onorina Fátima Ferrari, Sistema Urbano- Aluízio Capdeville Duarte.

Região Centro Oeste

Relevo- Amélia Alba Nogueira, Clima- Edmon Nimer, Vegetação- Lindalvo Bezzerra dos Santos, Hidrografia- Ney Rodrigues Inocêncio, População-  Elza C. de Souza Keller e Ruth L. da Cruz Magnanini, Transportes- Ney Rodrigues Inocêncio, Energia- José César Magalhães, Atividade Agrária- Olindina Vianna Mesquita, Indústria- Maria Theresa Bessa de Almeida, Elvia Roque Steffan e Ayrton Teixeira Almada, Sistema Urbano- Maria Rita da Silva Guimarães.

A última coleção da Geografia do Brasil ficou inacabada em virtude de problemas de editoração que atrasaram demasiadamente a publicação dos volumes do Nordeste e Sudeste, que se tornaram anacrônicos em relação aos dados do censo demográfico de 1991. Porém os volumes das demais regiões foram editados a tempo.

Da mesma forma que a coleção da década de 60, as edições foram publicadas a medida que iam sendo terminadas, a partir de um planejamento anual definido pelo DEGEO e tendo como organizadora da coleção Solange Tietzmann Silva, na chefia do departamento. Cada volume teria um coordenador geral e um encarregado das análises do quadro natural, pois havia após 1985, um Departamento de Recursos Naturais e Meio Ambiente (DERNA) enriquecido com técnicos vindos do RADAM BRASIL, que foram incorporados ao IBGE nas primeiras fases do governo de José Sarney.

O primeiro volume lançado foi o da Região Centro-Oeste coordenado por Aluízio Capdeville Duarte em 1989 e tendo como coordenador das análises do quadro natural Trento Natali Filho, que iria também coordenar os demais  volumes, Região Sul (1990) e Região Norte (1991), e os não  publicados Nordeste e Sudeste.

O volume do Sul foi coordenado por Olindina Vianna Mesquita e o do Norte, na primeira fase por Sulamita Machado Hammerli, que faleceu em 1990, sendo concluído por Olga Buarque de Lima.

O volume da Região Nordeste foi coordenado por Maristela de Azevedo Brito  e o do Sudeste teve dois coordenadores, Helena Zarur Lucarelli e Roberto Schmidt de Almeida. Ambos foram concluídos entre 1992 e 1993, mas não entraram em processo de editoração nesses anos, em virtude de problemas com a editoração do censo, e com isso tornaram-se defasados, quando comparados aos dados do censo de 1991. Foi tentada uma atualização dos dados em 1994,  mas a  falta de técnicos especializados para cuidar dos capítulos, em virtude da grande evasão para a aposentadoria ocorrida nos anos 90, acabou por inviabilizar o projeto.

As análises regionais que enfocaram espaços uma escala de maior detalhe, podem ser exemplificadas pelo detalhado trabalho de Jorge Zarur, em convênio entre o IBGE e o National Planning Association, através do Inter-American Regional Resourses Project de Washington, sobre a Bacia do Médio São Francisco, nos anos do pós-guerra (Zarur, 1947), o de Speridião Faissol sobre o Mato Grosso de Goiás (Faissol,1952), os estudos da zona de influência da Cachoeira de Paulo Afonso, em conjunto com técnicos do Ministério da Agricultura e coordenado no âmbito do CNG por Lindalvo Bezerra dos Santos (IBGE, 1952), o de Carlos de Castro Botelho sobre a zona cacaueira do sul da Bahia (Botelho, 1954) e pelo estudo de Orlando Valverde na  zona da mata de Minas Gerais (Valverde, 1958). Foram trabalhos clássicos, que envolveram vários segmentos da Geografia e que ainda dão uma visão privilegiada das áreas estudadas.

2 – Ocupação do Território e Habitat

Considerado um tema prioritário para o IBGE durante a Segunda Guerra e  nos anos 50, os estudos sobre o habitat e o processo de ocupação rural foram gradativamente perdendo força durante a década de 60 e totalmente abandonados nas décadas seguintes.

Discutir objetivamente o abandono dos estudos sobre habitat na Geografia brasileira não é uma tarefa fácil, em virtude dos fortes  componentes emocionais e ideológicos que sempre gravitaram em torno de dois grupos de geógrafos: os agrários e os urbanos.

O problema é antigo e não somente brasileiro. Max Sorre  já havia percebido que a noção de gênero de vida, e suas conseqüências para os estudos do habitat na França do pós guerra, encaminhavam-se para além do mundo rural em direção ao urbano, tanto é que explicitou os quatro tipos de desenvolvimento do estudo do habitat : 1- habitat rural, 2- as formas de transição, características originais do habitat urbano, 3- habitat urbano e 4- as formas mais evoluídas da habitat urbano –  as grandes cidades. (Sorre, 1949)

Para Max Sorre , o mecanismo das migrações também teria um papel crucial nos estudos futuros sobre o habitat, pois grandes alterações já eram pressentidas por ele, em razão do forte processo de industrialização por que o mundo estava passando no pós guerra.

Por hora, devemos ter em mente, que o aparente abandono dos estudos sobre habitat no Brasil, tenha se dado mais em função de um fortalecimento dos estudos urbanos (sistemas de cidades), que ocorreu após 1956, por influência de Michel Rochefort, do que por causa da efêmera Geografia Quantitativa (que conseguiu um feito importante, ser mais discutida do que efetivamente trabalhada, em virtude da reconhecida inabilidade do geógrafo brasileiro médio em trabalhar com a matemática e a estatística). É válido também considerar, que o forte enfoque econômico adotado por uma boa parte dos trabalhos de geógrafos agrários após a  década de 60, também tenha contribuído para esse abandono.

Apesar do caráter inescapavelmente polêmico da questão, é necessário considerar que os geógrafos das décadas de 60 , 70 e 80 , quantitativos, marxistas, tecnocratas ou o nome que se queira dar, viraram as costas para a Geografia Física, e que com isso, asfixiaram perigosamente a mais importante tradição da Geografia legada pelos franceses – a relação Sociedade / Meio. Tal situação somente veio apresentar modificação no final dos anos 80 e início dos 90, com a emergência dos estudos ambientais (assim mesmo, por estarem  agregados aos dólares que agências internacionais e ONGs estão acenando ).

Para trabalhar o conceito de habitat será necessário constituir alguns pré-requisitos básicos, e por isso teremos que nos reportar a Vidal de La Blache (1845-1918) fundador da moderna escola francesa de Geografia humana e que estabeleceu que o meio natural era o principal elemento nivelador e harmonizador de grupos sociais heterogêneos. Para uma avaliação mais profunda da obra de Vidal de La Blache e da tradição vidaliana, o livro de Buttimer (1980) dá uma contribuição inestimável no entendimento da evolução da relação sociedade / meio no contexto acadêmico francês, desde o século XVIII.

No entanto, se o leitor estiver interessado no entendimento entre a ocupação humana e as condições naturais desde a antigüidade até a renascença deve pesquisar no clássico de Clarence J. Glacken,  escrito nos anos 50, Traces of  the Rhodian Shore, considerado o mais completo trabalho sobre o assunto (Glacken,1967).

A concepção de Geografia Humana para Vidal de La Blache tinha a natureza como um fator preponderante. Buttimer (1980:61) cita textualmente um discurso pronunciado em aula inaugural na Universidade de Paris, que foi posteriormente publicado nos Annales de Géographie de 1913:

“A Geografia, que se inspira na idéia de unidade terrestre, tem como missão principal averiguar como as leis físicas e biológicas que regem o mundo se combinam e se  modificam ao serem aplicadas à diferentes partes da superfície terrestre. Tem como objeto de estudo especial a expressão mutável que, segundo sua localização, a aparência da terra adota”.

A principal ligação feita por Vidal de La Blache entre a natureza e sociedade no espaço foi o desenvolvimento do conceito de “Genre de Vie”, instrumento analítico que reconhece o mecanismo de integração entre o meio e a organização social de um grupo, com vistas ao seu sustento cotidiano. Do imenso trabalho de Vidal de La Blache em sistematizar e classificar espacialmente a noção de gênero de vida, originou-se a tradição vidaliana que teve com principais representantes Jean Brunhes, Albert Demangeon e Maximilien Sorre ( principalmente no que diz respeito a gênero de vida e habitat).

Brunhes (1869-1930) enfatizava a importância de se estabelecer a criação de uma geografia do trabalho como um objeto de análise mais objetivo para o entendimento do conceito de gênero de vida. Tal ênfase pode ser percebida na sua obra de 1902, em sua tentativa de classificação dos fenômenos que regem as atividades humanas: 1- fenômenos de ocupação improdutiva do solo ( casas e caminhos ) 2- fenômenos de domínio sobre plantas e animais   ( campos de cultivo e áreas de criação ) 3- fenômenos de economia destrutiva  ( exploração mineral e atividades de devastação da vida animal e vegetal ) , ver Brunhes (1962, cap. III,IV e V).

Para Buttimer (1980:86), a  Geografia francesa deve a ele …

“a primeira formulação explícita de orientação sistemática da Geografia Humana na escola francesa, fórmula que, sem dúvida, inspirou as posteriores investigações de Demangeon, Sorre e Deffontaines. Suas investigações substantivas sobre doenças, ritmos de trabalho, tipos de habitação e cidades demonstraram a validade de uma orientação desse tipo, e seus notáveis estudos de casos mostraram como essa perspectiva podia enriquecer o trabalho regional.”

Albert Demangeon (1872-1940) introduz a abordagem funcional, em paralelo à morfológica, que era corrente na época, para os estudos de habitat e povoamento (Demangeon, 1942). Seu sistema classificatório de aglomerado, aldeia e cidades e seu índice estatístico de dispersão são utilizados ainda hoje pelas agências censitárias em suas tarefas  pré-definidoras ao planejamento de logística de coleta de dados ( delimitação das unidades territoriais de coleta ). Sua preocupação com os aspectos funcionais, indo além dos puramente morfológicos trabalhados pelos geógrafos alemães com Schlüter, Gradmann e Meitzen, é percebida por suas reflexões sobre os efeitos da tecnologia nas atividades humanas e seus reflexos espaciais na distribuição, densidade e limites do povoamento em vários contextos geográficos.

Sorre (1880-1962) foi o que conseguiu sintetizar holísticamente as noções de gênero de vida e habitat como o resultado final de uma ampla gama de relações entre aspectos físicos, culturais, tecnológicos que rege a convivência humana.. Dos três, Sorre foi o que sentiu mais o poder da mundialização do progresso. Seus trabalhos sobre migrações modernas, turismo, difusão de doenças, espacialização de tecnologias e vida urbana dão um testemunho da grandeza de sua contribuição para a Geografia (Sorre, 1949).

O estabelecimento  de relações   mais  ricas entre  espaços sociais restritos (casa, aldeias ) e regiões, pode  ser  verificado na obra de  Armand  Fremont, que  faz  uma interessante costura desses elementos, na segunda parte do livro denominada:  Da Casa à Região

(Fremont,1980).

É com esse pano de fundo que se deve avaliar a influência dessas concepções da escola francesa de Geografia no meio acadêmico brasileiro, no que diz respeito aos estudos de gênero de vida e habitat. Muito embora, reconhecendo que não foi somente os franceses os que estudaram e orientaram os pesquisadores brasileiros no tema.

No contexto do Conselho Nacional de Geografia do IBGE, as figuras mais importantes que introduziram esse estudos, além do próprio Deffontaines entre 1935 a 1939, foram durante o início dos anos 40, as do francês  Francis Ruellan,  dos alemães Leo Waibel e Gottfried Pfiffer além dos americanos Robert Platt, Lynn Smith, Clarence F. Jones e Preston James

(Pereira, 1994: 440).

Dessas figuras, a mais importante foi Leo Waibel, sua vinda em 1946, trazido por influência de Cristóvão Leite de Castro, em virtude de ótimas recomendações dadas por Fábio de Macedo Soares Guimarães e Orlando Valverde, seus alunos em Winsconsin, pode ser entendida como uma ação de planejamento do governo federal visando o conhecimento de novas áreas para uma futura onda de colonização decorrente do pós-guerra. Seu trabalho sobre habitat rural e núcleos de população é parte de um artigo clássico, incluído no número especial de 50 anos da Revista Brasileira de Geografia em 1988. A perspectiva morfológica da escola alemã é perfeitamente sentida ( Waibel 1949).

Os americanos, Clarence Jones e Preston James também trabalharam com o tema colonização, por ocasião de suas estadas no Brasil (1948 e 1949 respectivamente). Preston James estudou, em períodos diferentes, o problema de colonização, uso da terra e gênero de vida. e ao voltar ao Estados Unidos escreveu um artigo sobre os tipos de uso da terra no Nordeste brasileiro no Annals of the Association of American Geographers , que posteriormente foi transcrito no Boletim Geográfico ( James, 1960).

Essas matrizes de pensamento e de métodos de estudo, somadas ao trabalho de orientação que esses geógrafos organizaram junto aos seus alunos brasileiros, criaram uma geração de geógrafos do habitat e do gênero de vida, encarada aqui em seu sentido mais amplo, pois nesse grupo encaixam-se os que trabalharam com o processo de colonização, alguns geógrafos regionais, os agrários e alguns urbanos que se preocupavam com processos de ocupação em periferias urbanas.

A Geografia do IBGE produziu uma grande quantidade de trabalhos que poderiam ser classificados em cinco grandes grupos, além de um assunto muito especializado, que trabalha com certas características do habitat para determinação de setores censitários nos recenseamentos demográficos e agropecuário.

Os Estudos Clássicos sobre Habitat

Se levarmos em consideração o escopo dessa pesquisa, é possível reconhecer que foram poucos os trabalhos que, explicitamente, trataram do tema, tanto no título quanto no conteúdo.

Nesse grupo, um dos que mais se enquadram é o de Antônio Teixeira Guerra, fruto de seus trabalhos de campo no antigo Território do Rio Branco (atual Roraima) e que descreve os diferentes tipos de habitação rural  daquela região (Guerra, 1955). Merece também destaque o trabalho de Nilo Bernardes (1957) por estabelecer os principais parâmetros para os futuros estudos, discutindo sistematicamente as principais formas espaciais de habitat no contexto brasileiro. Na década de 70, o trabalho de Írio Barbosa & Helena Mesquita (1978) identificou e sistematizou visualmente os principais tipos de habitação rural no Brasil, sendo pois, um guia de referência importante até hoje.

Os Estudos de Colonização e de Povoamento com Ênfase no Habitat e no Gênero de Vida

Esse conjunto congrega os trabalhos dos especialistas em processos de povoamento em geral e de colonização em particular. Sem sombra de dúvida, o trabalho mais importante é o de Leo Waibel, que explica o processo de colonização por europeus no Sul do Brasil (Waibel, 1949).

Os artigos de Speridião Faissol iniciam com o seu primeiro trabalho publicado na RBG, (Faissol, 1949) sobre uma colônia alemã -Uvá- na Região do Mato Grosso de Goiás, artigo que iniciou uma série de mais quatro sobre o tema colonização (Faissol 1951, 1952 ), incluindo um, de cunho didático, que explica os principais aspectos do processo de colonização (Faissol, 1952), além do livro O Mato Grosso de Goiás, que será tratado no próximo conjunto.

Nilo Bernardes também aparece com três títulos (Bernardes,1950, 1952, 1967) sendo que um deles (1952), tratando do mesmo assunto – colonização européia no Sul do Brasil – que Leo Waibel havia estudado em 1949. O anterior (1950) tratou da colonização no município gaúcho de Santa Rosa e o último, mais recente (1967), analisou o processo de colonização em  Alagoas.

Roberto Lobato Corrêa iniciou sua carreira profissional no início da década de 60 com um trabalho sobre a colônia alagoana de Pindorama (Corrêa,1963) e na década seguinte (Corrêa, 1970), escreve um trabalho de resgate histórico e geográfico de uma área antes do processo de colonização – o sudoeste paranaense.

O padrão clássico dos trabalhos sobre colonização enfatizando o Gênero de Vida, geralmente consta de bons mapas de distribuição dos povoados e sedes de fazendas, aliado à boas interpretações sobre as condições naturais e sobre os processos econômicos impulsionadores do povoamento, além de algum resgate histórico que caracterize o espaço estudado.

Estudos Regionais com Ênfase no Gênero de Vida e Economia

É o mais eclético e amplo de todos. Abarca praticamente todo o território nacional e trata de uma vasta gama de assuntos geográficos, mas mostra uma clara tendência para a relação entre a geografia agrária e os processos de povoamento  e de estruturação econômica que as acompanham.

O típico estudo regional pode cobrir vários aspectos de um determinado espaço e alguns dos aqui escolhidos são hoje considerados clássicos por sua abrangência e minudência dos assuntos tratados.  O artigo de Leo Waibel sobre as zonas pioneiras ( Waibel,1955),  o livro de Speridião Faissol sobre o Mato Grosso de Goiás (Faissol,1952), o artigo de Preston James no Annals of the Association of American Geographers  de 1953, transcrito no Boletim Geográfico (James, 1960), o guia de excursão de Orlando Valverde sobre o Planalto Meridional do Brasil, para o XVIII Congresso Internacional de Geografia de 1956 realizado no Rio de Janeiro (Valverde,1957), o artigo de Nilo Bernardes sobre as bases geográficas do povoamento do Rio Grande do Sul (Bernardes,1962) são alguns exemplos representativos desses clássicos do IBGE.

Destaque-se também a grande produção individual de Orlando Valverde abrangendo praticamente todas as regiões do país, com trabalhos que cobrem diferentes tipos de vida econômica (Valverde, 1955, 1957, 1958, 1968, 1989),além  de outros em co-autoria (Valverde e Mesquita, 1961; Valverde e Dias, 1967).

Os Estudos sobre Gênero de Vida com Enfoque Cultural

No contexto da tipologia seguida, indubitavelmente, esse foi o grupo que mais causou dúvidas, devido às amplas possibilidades de se classificar um trabalho tanto como estudo de habitat, quanto como regional. Na medida do possível, foi dado como preponderante para sua inclusão no grupo, que o trabalho se orientasse por  um tema que o enquadraria nos estudos de gênero de vida, como por exemplo:  um espaço produtivo e o tipo de vida de seus ocupantes, uma atividade rural, os valores e influências de determinadas culturas modificando ou sendo modificadas pelo espaço estudado, além dos artigos de cunho didático/informativo a respeito do tema.

Os títulos de maior destaque foram dois artigos de Orlando Valverde, um explicando o que é Antropogeografia (Valverde,1957), além do clássico trabalho sobre a fazenda escravocrata de café (Valverde, 1967). Fora do campo geográfico, o grande clássico sobre o assunto é o livro de Antônio Cândido (1964) , tratado de sociologia sobre o gênero de vida do caipira paulista e sua transição para o mundo urbano, pesquisa realizada no município de Bofete (SP).

Além desses, também aparecem trabalhos que, ao estudarem um determinado espaço regional orientaram suas pesquisas para um determinado setor produtivo ou atividade. ou para os aspectos culturais advindos de grupos étnicos minoritários. Como no trabalho de Walter Alberto Egler sobre a cultura fumageira do Recôncavo Bahiano ( Egler, 1952) e o de Orlando Valverde que trata da influência da imigração italiana nas modificações dos processos agrícolas em alguma regiões brasileiras e suas implicações no crescimento econômico do país (Valverde, 1959).

Estudos de Periferia Rural/Urbana

A principal razão da inclusão desse grupo de estudos, está nas preocupações de Max Sorre (1948) sobre a necessidade de se criar uma nova tipologia de gêneros de vida, baseada nas novas realidades da vida urbano-industrial.

Alguns dos pesquisadores que escreveram esses trabalhos, talvez não estivessem preocupados, com esteve Sorre, com as questões ligadas à transição rural-urbana que estava tomando velocidade e ampliando sua escala, no pós-guerra, mas mesmo assim, deixaram suas contribuições para o que deveria ser o novo espaço de entendimento do gênero de vida e das novas formas de habitat – a área periférica das metrópoles.

Nesse grupo destacam-se os trabalhos de Pedro Geiger  e de alguns colaboradores sobre a Baixada Fluminense (Geiger, 1952 e 1956, Geiger & Coelho,1956, Geiger & Santos, 1954), o de Nilo Bernardes sobre atividades rurais em área montanhosa na cidade do Rio de Janeiro (Bernardes Nilo, 1959), o de Lysia Bernardes sobre uso da terra na periferia de Curitiba ( Bernardes Lysia, 1956). Além desses, pode-se citar também o trabalho de Henrique Sant’ Anna sobre a ocupação humana na atual região dos lagos no Estado do Rio de Janeiro (Sant’Anna, 1968),  e o artigo de Edmon Nimer e Jacob Binsztok sobre o espaço rural periférico à cidade capixaba de Castelo (Nimer & Binsztok, 1967).

As questões sobre loteamentos, mudanças de atividades agrícolas,  cristalização de hábitos rurais e resistências às  mudanças são mais ou menos percebidas nesses trabalhos. As preocupações de caráter social levantadas por Pedro Geiger e colaboradores ao estudar as articulações econômicas que envolviam processos fundiários que já estavam ocorrendo na Baixada Fluminense no início da década de 50 foram de grande relevância, ao anteverem espacialmente os problemas que marcariam a área periférica da atual região metropolitana do Rio de Janeiro.

A Importância do Habitat no Planejamento dos Censos

A principal tarefa geográfica numa operação de censo demográfico insere-se na etapa de planejamento e execução da base geográfica operacional. Isto é, a delimitação dos setores censitários, passíveis de serem trabalhados pelos recenseadores ( agentes de coleta ).  Nesse procedimento, está embutido o estudo de Demangeon que levou à definição de um sistema classificatório de aglomerados humanos e ao índice estatístico de dispersão das habitações, ver Derruau (1964: 384-87).

A maior dificuldade desse planejamento é justamente uma conceituação objetiva de aglomerado e assentamento que se situam em áreas rurais, já que na área urbana contínua, a delimitação dos setores censitários é amarrada à existência de quarteirões e ao tamanho médio dos edifícios multifamiliares.

No âmbito do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que é a principal agência do governo federal encarregada das operações censitárias no país, a tarefa de conceituar e testar a operacionalização das categorias de aglomerados rurais, para a otimização das operações de coleta de dados nos respectivos domicílios, é sempre passível de alterações de censo para censo.

O trabalho de Olga Maria Buarque de Lima Fredrich (geógrafa); Sebastiana Brito (socióloga)  e Sonia Rocha (economista), publicado na principal revista de estudos estatísticos do IBGE, dá uma idéia da complexidade desse problema vivido pelos recenseadores do censo demográfico de 1980 e três anos após o encerramento dos trabalhos de apuração, coloca em discussão o tema, para que os planejadores dos próximos, possam se utilizar dos resultados dos estudos e dos debates técnicos. (Fredrich, Brito, Rocha, 1983).

A principal questão em pauta no artigo é a sugestão de modificação da definição de aglomerados rurais para fins censitários, por que nas palavras das autoras :

“… a conceituação  adotada para o Censo de 1980 tem limitações que impedem uma melhor caracterização do fenômeno pesquisado. Uma primeira limitação, que está relacionada ao fato da definição legal de urbano e rural respeitada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, nos levantamentos censitários, nem sempre retrata a realidade da ocupação urbana, se refere à não identificação entre os chamados aglomerados rurais, dos assentamentos que são, na verdade, de natureza urbana, ou seja, de áreas urbanizadas situadas fora dos perímetros urbanos definidos por lei. O problema alcança maior expressão na periferia das cidades de maior tamanho e dinamismo, cuja expansão ultrapassa, muitas vezes, os limites do perímetro urbano legal.”

Outras limitações referentes às instruções para a conceituação de aglomerados rurais foram também avaliadas: definição correta de tamanho e distância entre “casas de moradia”, dúvidas quanto a definição de setor especial ( presídios, canteiros de grandes obras, etc. …) e critérios de composição da população envolvida ( sexo e percentual da População Economicamente Ativa – PEA ).

A proposta deixada no artigo pelas autoras, vai desde os critérios de definição de cada tipo de aglomerado por tamanho, densidade, repartição da PEA segundo setores de atividade. Além de apresentar testes de campo no Estado do Rio de Janeiro e no Maranhão.

Nas justificativas as autoras colocam que…

“… No caso dos aglomerados isolados, o tamanho mínimo de 51 domicílios permitirá que não se deixe de reconhecer e registrar a especificidade de adensamentos demográficos que tem importância como ponto de convergência da população rural para a comercialização de produtos e realização de serviços. Para o planejamento, é imprescindível a identificação desses pontos que servem eficientemente, por exemplo à logística de implantação de programas educacionais e de saneamento”.

Trabalhos como esse devem ser entendidos como uma das múltiplas faces do tema habitat, pois gera subsídios para um entendimento melhor da distribuição espacial da população urbana e rural.

3 – Industrialização

A Geografia enfocando o processo industrial em escala regional inicia sua atuação com o artigo de um grupo de pesquisas coordenado por Pedro Geiger em 1963, mas que foi inicialmente orientado por Michel Rochefort em 1961.  O estudo trabalhava com o processo de industrialização da região sudeste e é, sem sombra de dúvidas, o mais completo quadro da industrialização brasileira no início dos anos 60. Além de Pedro Geiger, compunham o grupo nove geógrafos, Fany Davidovich, Ignez de Moraes Costa, José Carneiro Felipe Filho, José César de Magalhães, Maria Elisabeth Corrêa de Sá, Maria Lúcia Meireles de Almeida, Maria Luiza Gomes Vicente, Ney Julião Barroso e Salomão Turnowski. Cabendo a Fany Davidovich a redação final do artigo, o que garantiu uma alta qualidade ao texto, tornando-o um clássico na modalidade. Além disso, as fotos dos arquivos do CNG dão uma incrível visão do processo de industrialização no início dos anos 60.

É importante frisar que estamos tratando de estudos que operavam na escala regional ou nacional, evitando sempre que possíveis trabalhos monográficos que enfocavam um centro muito especializado. Modalidade muito comum nos congressos de Geografia. Mas algumas exceções foram importantes, como no caso do trabalho de Milton Santos (na época professor da Universidade da Bahia) que publicou na RBG um importante trabalho sobre localização industrial na cidade de Salvador, a segunda metrópole nordestina, que no final dos anos 50 já possuía um parque bem diversificado (Santos, 1958).

Uma outra exceção pode ser atribuída ao artigo de Fany Davidovich sobre a industrialização de um centro periférico à metrópole de São Paulo no início dos anos 60, Jundiaí. (Davidovich, 1966) .

A década de 60 caracterizou-se por uma tentativa de ampliação das políticas de descentralização industrial que visavam diminuir as desigualdades entre as regiões brasileiras, priorizando o Nordeste via adoção de incentivos fiscais para implantação de parques industriais nas suas duas maiores metrópoles, Recife e Salvador. Tais políticas gerenciadas pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) não deram ao longo daqueles anos, resultados que pudessem ser sentidos claramente por suas economias.

No contexto das relações interdisciplinares que o IBGE tentou implementar nos anos 70 a associação entre o geógrafo Pedro Geiger e o economista teuto-americano Werner Baer no DEGEO, associação que acabou por gerar um dos melhores artigos de avaliação das políticas de incentivo fiscais para a indústria no Nordeste brasileiro, mostrando sua ineficácia e indicando claramente a persistência das desigualdades regionais apesar do grande volume de recursos despendido na década anterior, (Baer, Geiger et alli, 1976).

A continuidade do interesse de Pedro Geiger pelos processos industriais que estavam em curso em várias áreas do país, levou-o a estudar o processo de concentração geográfica dos estabelecimentos industriais, juntamente com mais três colaboradoras a geógrafa Ciléia da Silva, a socióloga Zélia de Morais e a economista Helena Castelo Branco (Geiger et alli, 1980).

Na mesma época, o interesse pelos processos de localização industrial na escala de região metropolitana também levou outros geógrafos do IBGE a estudarem as relações entre localização e migração de indústrias e suas estruturas de fluxos de matérias prima e de produtos finais entre a região metropolitana alvo e as diversas escalas espaciais possíveis, locais, estaduais, regionais e nacionais. Roberto Schmidt de Almeida e Miguel Ângelo Campos Ribeiro iniciaram seus estudos pela região metropolitana de Recife (Almeida e Ribeiro, 1980) e Ribeiro deu continuidade ao assunto trabalhando com a RM de Salvador para sua tese de mestrado em Geografia na UFRJ ( Ribeiro, 1982).

Durante toda a década de 90 esses dois autores dedicaram-se aos estudos de localização e de tipologia industrial nas escalas regional e nacional. Foram trabalhadas as regiões Norte ( Almeida e Ribeiro, 1995), Nordeste ( Almeida e Ribeiro, 1991a, b), Sudeste (Almeida e Ribeiro, 1993, 1995) e na escala nacional, ao trabalharem no módulo Industrialização do Atlas Nacional do Brasil de 1992,  resultou num artigo no número especial do Caderno de Geociências dedicado à algumas análises do mapeamento do ANB.  O objetivo principal desses trabalhos era verificar o grau de concentração / diversificação do processo industrial brasileiro e compará-lo inter-regionalmente. Mas esse tipo de análise mascarava muitos processos industriais que ocorrem em escalas mais locais e que tradicionalmente não são estudados por técnicos do governo federal.

Um cenário alternativo a esses estudos foi tentado na Região Nordeste (Almeida e Ribeiro, 1991a) e estava ligado aos padrões de localização dos pequenos e médios estabelecimentos de algumas atividades industriais do segmento regional nordestino, fazendo uma comparação em dois períodos de tempo (1970 e 1980). A principal preocupação era avaliar a dinâmica espacial dessas indústrias que costumam compor o grupo de empresas do “circuito inferior” da economia urbana, conforme estudado por Milton Santos em seu já clássico O Espaço Dividido  (Santos, 1979), mas analisando-as num contexto regional.

Foram analisados oito tipos de indústrias: Preparação de Fumo, Artefatos de Selaria, Fabricação de Redes, Artigos Pirotécnicos, Óleos Vegetais, Farinha de Mandioca, Aguardente, Açúcar Bruto e Rapadura, após um exaustivo trabalho de filtragem nos censos industriais de 70 e 80 e verificada a evolução dos seus padrões espaciais de distribuição, que poderiam estar tendendo a concentração, dispersão e a estabilidade no território nordestino.

Quando comparado aos convencionais trabalhos tipológicos que operam com os grandes gêneros industriais, uma análise como essa abre grandes possibilidades de se entender o que fica fora de foco em regiões de desenvolvimento incipiente.

Ainda no contexto dos estudos de estrutura industrial ocorridos na década de 90, o mais completo trabalho interdisciplinar entre Geografia e Estatística foi levado a efeito por Evangelina Xavier G. de Oliveira e Luisa Maria La Croix, a primeira, geógrafa da geração quantitativa e que sempre trabalhou com essas técnicas, possuindo um amplo domínio sobre elas. A segunda, economista que sempre operou no ambiente das estatísticas industriais do IBGE.

Com a denominação de Áreas Industriais: uma proposta de inovação na produção de estatísticas, foi o resultado dessa combinação de saberes, gerando a proposta de uma espacialização, em nível nacional, de áreas industriais: “recortes territoriais onde é significativa a atividade industrial, e cuja estrutura produtiva é similar ou complementar, setorialmente, identificando-se conjuntos de municípios vizinhos, por vezes não contíguos, ou municípios isolados, com perfil de especialização específico.” (Oliveira e La Croix, 1994). O objetivo fundamental desse trabalho era de contribuir com o Sistema Estatístico Nacional (SEN), gerando bases operacionais que agilizem a realização da coleta e diminuam os custos de produção dos dados.

Os resultados palpáveis de um trabalho como este deverão vir à tona com os novos bancos de dados industriais que estão sendo gestados na Diretoria de Pesquisas em substituição aos antigos censos industriais que foram interrompidos na década de 90.

4- Urbanização

O que se convencionou  denominar de trabalhos ligados ao estudo da urbanização brasileira na área de Geografia do IBGE, pode gerar alguma controvérsia, pois apresentam-se, as vezes, misturados com os estudos de polarização e, em outros casos, com os de industrialização. Mas se adotar-mos uma classificação bem livre, será possível traçar a trajetória desses trabalhos desde os de Pierre Deffontaines sobre as cidades brasileiras (Deffontaines, 1944) até os estudos sobre a constituição das Áreas Metropolitanas (IBGE, 1969) e os que analisaram os fatores que poderiam compor as aglomerações urbanas brasileiras (Davidovich e Lima, 1975), (Davidovich e Cardoso, 1982), ( Lima Fredrich e Davidovich, 1982). Muito embora, as contribuições de Nice Lecoq Müller (1968), Roberto Lobato Corrêa (1968 e 1989) no que tange aos estudos de redes urbanas e o de Maurício Abreu (1994) que tratou dos trabalhos que operaram na escala intra-urbana são, sem sombra de dúvidas, as melhores avaliações sobre o tema Geografia Urbana brasileira feitos até o final do século XX.

O que importa aqui é dar ao leitor um quadro de referência sobre as principais linhas de trabalho da Geografia Urbana , com os seus principais produtores.

O geógrafo francês Pierre Deffontaines foi o iniciador desses estudos em seu artigo A Geografia Humana do Brasil  (1939) no capítulo III, publicado na RBG n.1 v.2, p. 34-46, ao analisar as duas maiores cidades do Brasil enfocando a posição e o sítio, o processo de ocupação do solo, o microclima, as vias de comunicações e o abastecimento. No caso de São Paulo, Deffontaines também analisa o critério função, em virtude de sua estrutura industrial que já se organizava nos municípios periféricos São Caetano, Santo André e São Bernardo do Campo.

Ainda no campo do estudo de funções urbanas, Deffontaines produziu em 1938, um artigo para o Bulletin de la Societé de Géographie de Lille , posteriormente traduzido por Orlando Valverde para o Boletim Geográfico (Deffontaines, 1944), com o título de Como se Constituiu no Brasil a Rede de Cidades que, apresenta uma classificação de cidades brasileiras de acordo com suas funções (as reduções missionárias, aglomerações de origem militar, as cidades mineiras, as cidades nas estradas: pousos, as cidades da navegação, ruínas de cidades pelas via férreas, cidades estações ferroviárias e as bocas de sertão). No contexto americano Chauncy Harris e Edward Ullman publicaram em 1945  The Nature of Cities que enfocava de maneira bem semelhante esse tipo de classificação – cidades como localidades centrais, cidades como ponto de transbordo, cidades como pontos de concentração de serviços especializados. A segunda parte tratou da estrutura interna das cidades dentro dos conceitos da escola de sociologia urbana de Chicago  (Harris e Ullman, 1971).

Ainda sobre a questão do binômio sítio/posição, Deffontaines voltou a tratar do assunto especificamente sobre o Rio de Janeiro, numa conferência pronunciada em 1959, devidamente anotada por Lysia Bernardes e publicada no Boletim Geográfico 184  (Deffontaines, 1965).

Quando se pesquisa a estrutura de sumários da RBG verifica-se que o primeiro brasileiro a estruturar um conjunto de quatro artigos sobre Geografia Urbana nos primeiros volumes da revista, foi o engenheiro da Prefeitura do Distrito Federal Jeronymo Cavalcanti, numa composição semelhante a do também engenheiro Moacir F. Silva que havia enfocado a Geografia dos Transportes na escala de Brasil em 11 números consecutivos  (RBG v.1 n.2 a v.3 n.4).

Jeronymo Cavalcanti inicia sua série com o artigo A Geografia e a sua influência sobre o Urbanismo na RBG v.2 n.4 out./dez., 1940, continua na seguinte com A Geografia Urbana e sua influência sobre o saneamento das cidades (RBG v.3 n.1 jan./mar. 1941), na RBG v.3 n.3 jul./set. 1941 apresenta A Geografia Urbana e sua influência no tráfego  e finaliza a série na RBG v.4 n.1 jan./mar. 1942 com A Geografia Urbana e sua influência sobre o Urbanismo superficial e subterrâneo. O primeiro tratou sobre as questões ligadas à posição e ao sítio e sobre as condições morfológicas que beneficiam ou restringem a expansão urbana, os demais são artigos que enfocam a distribuição espacial dos equipamentos básicos no contexto intra-urbano. Tráfego (analisado sob o aspecto dos meios de transporte e da malha viária), saneamento (abastecimento e esgotamento sanitário) e estrutura geológica e vegetação (suas relações com a engenharia civil e o paisagismo).

Todos os artigos são ricamente documentados com fotos, plantas urbanas e arquiteturais e desenhos. Esta série deve ser seriamente considerada como elemento de estudos nos cursos de história da Geografia Urbana ou do Urbanismo atuais, para um melhor entendimento do que era considerado pelos planejadores urbanos no final da década de 30 e início dos anos 40.

Durante o decorrer da década de 40 o estudo da Geografia Urbana esteve mais ligado aos trabalhos monográficos sobre certos centros urbanos que mereciam destaque por alguma característica específica os exemplos de Caxambú e Lambari trabalhados pelo engenheiro Virgílio Correa Filho, assistente técnico do CNG nas RBG v.2 n.3 jul./set. 1940 e RBG v.9 n.4 out./dez. 1947, e o de Águas de São Pedro produzido por Sílvio Fróis de Abreu, consultor técnico do CNG na RBG v.6 n.1 jan./mar. 1944, analisando o desenvolvimento dessas estâncias hidrominerais.  A construção de Goiânia, onde o CNG teve uma importante participação, inclusive organizando parte da solenidade do batismo cultural da cidade, foi estudada por Aroldo de Azevedo, professor da USP e editada na RBG v.3 n.1 jan./mar. 1941. Orlando Valverde também deu sua contribuição aos estudos monográficos, através de sua segunda contribuição acadêmica na revista com os ensaios sobre Pirapora  e Lapa (RBG v.6 n.4 out./dez. 1944).

Na escala intra-urbana o trabalho de Everardo Backheuser (RBG v.6 n.1 jan./mar. 1944) sobre comércio ambulante e as ocupações de rua no Rio de Janeiro apresenta-se como pioneiro neste campo, e o de Moacir F. Silva sobre as redes de distribuição de energia para a iluminação pública no Rio de Janeiro deu uma continuidade aos trabalhos anteriores de Jeronymo Cavalcanti (RBG v.7 n.4 out./dez. 1945).

O mesmo Moacir F. Silva apresentou na RBG v.8 n.3 jul./set. 1946 o primeiro artigo enfocando a questão da tipologia urbana  como um resultado compósito de vários fatores como tamanho populacional e função, utilizando uma vasta bibliografia americana e francesa e estabelecendo comparações entre continentes. É claramente um precursor dos trabalhos desenvolvidos por Speridião Faissol na década de 70, baseados na classificação de tamanho funcional gerada pela técnica de análise fatorial.

Na segunda metade da década de 40, os estudos visando a transferência da capital do Brasil para algum ponto do interior brasileiro geraram artigos que estavam mais vinculados aos aspectos regionais do que propriamente o novo sítio, no entanto será importante citar os artigos de Christóvão Leite de Castro sobre o processo (Castro, 1946 e 1947), pois geraram muita polêmica no contexto das relações do IBGE com a Presidência da República.

Na década de 50 iniciam-se as contribuições de Pedro Geiger enfocando ainda um contexto peri-urbano na Baixada Fluminense com o trabalho sobre loteamentos (Geiger, 1952), analisa com a co-autoria de Ruth Lyra Simões (RBG v.16 n.3 jul./set. 1954) o processo evolutivo dessa área, e em co-autoria com Myriam Gomes Coelho (Geiger e Coelho, 1956) ao tratar de estudos rurais, já insere algumas questões relacionadas ao espaço peri-urbano.

Seus trabalhos de  total ligação com a Geografia urbana e industrial podem ser percebidos nas análises do processo de urbanização da Baixada Fluminense em seus setores da orla oriental da Baía de Guanabara (Geiger, 1956 ) e na região setentrional (Geiger,1956).

Em 1963, Geiger edita pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Educacionais o clássico Evolução da Rede Urbana Brasileira, o mais completo trabalho sobre o processo de urbanização brasileiro feito nos anos 60. Com um sumário que abrangia tanto o processo, quanto a tipologia, mas que também cobria todo o espectro das grandes aglomerações urbanas brasileiras em termos de exemplos, além de um capítulo sobre a mais nova experiência urbana brasileira da época, Brasília. Definindo as metrópoles nacionais e delimitando hierarquicamente suas respectivas redes, além de correlacionar explicitamente as relações entre industrialização e urbanização, que começavam a se delinear no Brasil no final dos anos 50 e início dos 60.

Para se ter uma avaliação aproximada de seu poder de produção geográfica, naquele período, a professora da USP Nice Lecocq Müller (1968) ao avaliar o estado da arte ds estudos de Geografia Urbana no Brasil durante o Simpósio de Geografia Urbana do IPGH, realizado em Buenos Aires em 1966, listou 10 trabalhos de Geiger realizados entre 1952 e 1963 e o geógrafo do IBGE Roberto Lobato Corrêa (1968) ao avaliar os estudos sobre redes urbanas no brasil até 1965 no mesmo Simpósio, detectou cinco que tratavam especificamente do tema também escritos por ele entre 1957 e 1964.

O período compreendido entre 1956 e 1968 marca uma fase de intensos trabalhos na área de Geografia Urbana. O XVIII Congresso Internacional de Geografia realizado no Rio de Janeiro chamou a atenção da comunidade internacional da Geografia para uma agência de planejamento estatístico e territorial que possuía uma equipe de profissionais de alto nível, formados por Pierre Deffontaines nas fases iniciais, treinados Francis Ruellan desde 1940 e por Leo Waibel entre 1945 e 1950, a maioria com treinamento especializado em universidades no exterior (França e Estados Unidos), além e de receberem freqüentemente visitas técnicas de pesquisadores especializados (Emmanuel de Martonne, Pierre Dansereau, Clarence Field Jones, Preston James, Jean Tricart e outros).

Um dos geógrafos que passou a trabalhar com a equipe do CNG nos estudos de urbanização foi Michel Rochefort. Sua colaboração com Lysia Bernardes e Pedro Geiger na década de 60, deixou um legado de formação de técnicos e de adoção de metodologias nos estudos urbanos e industriais que ainda não foi totalmente substituído. O trabalho sobre a rede urbana do Rio de Janeiro (Bernardes L.,1964) é, sem dúvida, a mais importante pesquisa feita nesse período, usando os ensinamentos de Michel Rochefort ( 1957 ) no trato de questões sobre sistemas de cidades, principalmente no que se referia aos processos de determinação da hierarquia urbana de um espaço regional ou nacional, através da avaliação do setor terciário das cidades envolvidas. No campo dos estudos das relações campo-cidade alguns geógrafos também foram importantes, deste conjunto destacam-se três, dois que trabalharam sistematicamente no assunto: Maria Francisca Thereza Cavalcanti Cardoso e Roberto Lobato de Azevedo Corrêa e a terceira, Elza Coelho de Souza Keller que em 1969 publicou um artigo sobre as funções regionais e a zona de influência da cidade de Campinas (RBG v.31 n. 2 abr./jun. 1969) e que também coordenou, juntamente com Pedro Geiger, o primeiro projeto de delimitação das regiões funcionais urbanas de 1972.

A produção de Maria Francisca na Revista Brasileira de Geografia enfocando os  estudos urbanos inicia-se na década de 50, com um trabalho sobre a cidade de Cataguases – MG (Cardoso, RBG v.17 n.4 out./dez 1955), após um período trabalhando com Geomorfologia, retorna as pesquisas urbanas na década de 60 com dois trabalhos sobre área de influência de cidades médias nordestinas Campina Grande (RBG v.25 n.4 out./dez. 1963) e Carauaru (RBG v.27 n.4 out./dez. 1965) e um específico de intra-urbana sobre a feira de Caruaru (RBG v.29 n.1 jan./mar. 1967). Na década de 70 trabalha com planejamento de polos de desenvolvimento no Nordeste (RBG v.32 n.1 jan./mar. 1970) e no final da década em Minas Gerais, trabalhando com a técnica de mercados mínimos para medir desequilíbrios intra-regionais (RBG v.41 n.3 jul./set. 1979). Maria Francisca Cardoso trabalhou também na área de divulgação de assuntos geográficos e orientou a estrutura de cursos de aperfeiçoamento durante o início dos anos 80, retornou à pesquisa geográfica, trabalhando em análise regional e aposentou-se em 1991.

A vinculação de Roberto Lobato de Azevedo Corrêa com a Geografia Urbana, e em particular com os estudos das relações entre cidades e suas regiões de influência, inicia-se na década de 60, no contexto de pesquisas que adotaram o método de Michel Rochefort de avaliação de redes urbanas.  Em seu depoimento para esta pesquisa, Roberto explicita quem foram seus principais orientadores e referências metodológicas…

“ Olha eu devo meu crescimento para profissional no IBGE a duas pessoas fundamentalmente, primeiro Nilo Bernardes e depois a Lysia Bernardes, sobretudo a ela. Com Nilo Bernardes eu comecei a trabalhar em Agrária e cheguei a fazer trabalhos de campo, dois trabalhos de campo no sertão e agreste de Alagoas e Sergipe e uma parte da Bahia em 62 e em 64 na região de Amargosa no agreste Bahiano, aí comecei a trabalhar com Geografia Agrária, isso foi no período de 59 a 62. De certa forma, esse foi o período de meu interesse pela Geografia Agrária. Ainda que eu fosse a campo em 1964 com Nilo Bernardes, meu foco de interesse já havia mudado desde 196l, quando eu fui trabalhar com Lysia Bernardes e embora trabalhando ainda em Geografia Agrária do Nordeste, paralelamente, eu já acompanhava de perto e namorando, o que a Lysia fazia sob orientação do  Michel Rochefort, para definir a região de influência do Rio de Janeiro e depois as primeiras áreas de influência do Nordeste para o Banco do Nordeste do Brasil, foi a partir daí que começou meu interesse pela   Geografia Urbana e isso eu devo a Lysia Bernardes sem a menor dúvida…”  (Depoimento de Roberto Lobato Corrêa a RSA).

Outra constatação sobre essas influências, foi também mostrada na epígrafe do seu segundo  artigo de avaliação da produção geográfica sobre redes urbanas (RBG v.51 n.3 jul./set. 1989:113)…

“A Monbeig e Rochefort que lançaram a semente. A Milton Santos, Lysia Bernardes, Pedro Geiger e Elza Keller que, entre 1956 e 1964, fizeram-na germinar”

Sua produção pode ser avaliada de várias formas, mas ele mesmo foi o seu mais completo avaliador, ao ter elaborado dois trabalhos de análise do “estado da arte” sobre o tema de redes urbanas, um no final dos anos 60 (Corrêa, 1968) e outro no final dos anos 80 (Corrêa, 1989), outro, de enfoque analítico sobre as diferentes abordagens dos estudiosos ao tema, e também propositivo, ao elencar algumas linhas de pesquisas que, a seu ver, deveriam ser objeto de estudos no futuro (Corrêa, 1988) e, coroando sua vida profissional, com a publicação do livro Trajetórias Geográficas (Corrêa, 1997), uma coletânea de seus principais trabalhos em segmentos de pesquisa da Geografia (Redes, Espaço Urbano, Região, Espaço e Empresa e Espaço, Tempo e Cultura).

A principal característica da trajetória profissional de Roberto Lobato Corrêa na Geografia Urbana brasileira foi sua total inserção nas quatro correntes metodológicas por que passou a Geografia Urbana no IBGE, a “Tradicional” de  inspiração francesa, dos anos 60, a de “Planejamento Urbano”, também de inspiração francesa sob a orientação de Michel Rochefort, no final dos anos 60, a “Quantitativa” de inspiração anglo-americana dos anos 70 e a “Marxista” dos anos 80. Seus principais trabalhos em cada dessas fases foram Cidade e Região no Sudoeste Paranaense (RBG v.32 n.2 abr./jun. 1970) na fase “Tradicional”; Estudos Básicos para a Definição de Pólos de Desenvolvimento no Brasil  (RBG n.29 n.1 jan./mar. 1967) em co-autoria com Rubens de Mattos Ferreira do EPEA, Fany Rachel Davidovich e Pedro Pinchas Geiger, na fase de “Planejamento Urbano”;  o capítulo Sistema Urbano  do volume Região Sudeste de 1977 em co-autoria com Olga Maria Buarque de Lima e sua tese de mestrado em Chicago, orientada por Brian Berry Variations in Central Place System: ana analysis of the effects of population densities and income levels em 1974 na fase “Quantitativa” e Repensando a Teoria das Localidades Centrais na coletânea Novos Rumos da Geografia Brasileira, organizada por Milton Santos em 1982, na fase “Marxista”

Num de seus últimos trabalhos publicado na Território , Roberto retoma a questão da rede urbana sob o novo contexto da globalização, analisando o papel complementar  das pequenas cidades na composição das redes urbanas e exemplifica certas áreas no Brasil. Uma linha de pesquisa altamente promissora, tanto para trabalhos no âmbito do IBGE, quanto para pesquisas de futuras teses universitárias(Corrêa, 1999).

Roberto Lobato Corrêa iniciou sua carreira no IBGE em 1959 e aposentou-se em 1993, atualmente leciona na UFRJ.

Os estudos de redes no IBGE foi continuado nos anos 90 pela equipe do projeto Regiões de Influência das Cidades e individualmente por Miguel Ângelo Campos Ribeiro, que havia colaborado neste assunto no relatório do projeto Diagnóstico da Amazônia Legal para a Secretaria de Assuntos Estratégicos em 1995 e elaborou sua tese de doutoramento, orientado por Roberto Lobato Corrêa, sobre a rede urbana da Amazônia, trabalhando a justaposição de três tipos de redes: a rede do centros de produção, a rede de centros de distribuição e a rede de centros de gestão (Ribeiro, 1998). Miguel Ângelo Ribeiro aposentou-se em 1999 e atualmente leciona na UERJ.

A área de análises sobre o processo de urbanização foi a arena de dois profissionais que produziram dois tipos de trabalhos bem distintos, mas que geraram uma boa complementaridade aos olhos dos outros técnicos da área de planejamento federal. O primeiro foi Speridião Faissol e sua equipe, que geraram uma grande série de análises sobre a estrutura urbana brasileira, apoiados em técnicas quantitativas as mais diversas, e o segundo foi Fany Rachel Davidovich, que contribuiu enormemente com seus trabalhos e relatórios, que tendiam a explicar em termos mais políticos do que técnicos os processos de urbanização, abrindo com isso canais de comunicação mais efetivos entre as áreas de planejamento urbano situadas em agências como o SERFHAU ou o Ministério de Urbanismo e o IBGE.

A produção técnica de Fany  na RBG inicia-se em 1961, com um artigo em co-autoria com Pedro Geiger Aspectos do Fato Urbano no Brasil, (RBG v.23 n. 2 abr./jun. 1961), transita pelos estudos de Geografia industrial em 1966, participa do grupo de trabalho sobre a definição de pólos de desenvolvimento (RBG v.29 n.1 jan./mar.1967), estuda os fluxos de bens e pessoas no processo de regionalização urbana (RBG v.31 n.2 abr./jun. 1969), trabalha com redes urbanas no Nordeste em dois momentos distintos (RBG v.33 n.2 abr./jun. 1971 e v.40 n.2 abr./jun.1978), juntamente com Olga Buarque de Lima e Maria Francisca Cardoso elaboram o projeto de aglomerações urbanas (RBG v.37 n.1jan./mar. 1975,  v.38 n.4 out./dez. 1976, v.43 n.1 jan./mar 1981, v.44 n.1 jan./mar. 1982), elabora paralelamente, alguns trabalhos teóricos e de orientação de políticas sobre o processo de urbanização, que a fizeram conhecida no ambiente de planejamento urbano federal (RBG v.36 n.3 jul./set. 1974, v.39 n. 3 jul./set. 1977, v.40 n.1 jan./mar. 1978, v.45 n.1 jan./mar. 1983, v.48 n.3 jul./set. 1986, v.49 n.2 abr./jun. 1987, v.49 n.4 out./dez. 1987).   Fany ingressou no IBGE em 1943 e afastou-se em 1945 ao casar-se, retornou em 1960 e aposentou-se pela compulsória em 1992, mas continua a produzir como consultora em diversas agências de governo.

Os trabalhos da fase “ urbana”  de Speridião Faissol e sua equipe, caracterizavam-se pela tentativa de absorção dos métodos quantitativos, que foram mais explorados no contexto dos trabalhos classificatórios de centros urbanos,  ao correlacionar  tamanho populacional com características funcionais, gerando o fator tamanho funcional, muito citado nos trabalhos do período (Faissol, 1972).

O envolvimento de alguns geógrafos do IBGE com a Geografia Quantitativa sob a liderança de Faissol, se deu através de Brian Berry, geógrafo norte-americano com especialização em Geografia dos Mercados de Varejo (Berry, 1971) preocupado em estabelecer uma base mensurável para Teoria dos Lugares Centrais definida  em 1933 por Walter Christaller (1966) e John P. Cole, geógrafo inglês especializado em métodos quantitativos, especialmente as análises multivariadas que conjugavam conjuntos de variáveis demográficas e econômicas a um grupo de lugares (cidades) e espacializavam as correlações que emergiam do algoritmo (Cole, 1972). Além de Speridião Faissol, coordenador do Grupo de Áreas Metropolitanas (GAM), Pedro P. Geiger, Roberto Lobato Corrêa, Olga Maria B. de Lima, Hilda da Silva, Marilourdes L. Ferreira, Evangelina Xavier G. Oliveira, foram os profissionais do IBGE que mais se dedicaram ao estudo dos novos métodos, embora alguns outros tenham também utilizado essas técnicas, principalmente no contexto dos estudos dos sistemas urbanos da coleção Geografia do Brasil  de 1977.  Olga e posteriormente Evangelina, seguiram para Inglaterra, Roberto Lobato e Hilda da Silva foram para os USA.(Hilda veio a falecer em Chicago no período do doutoramento em 1975).

A produção geográfica de Speridião Faissol sobre a urbanização brasileira foi muito extensa, além disso, Faissol mostrou uma impressionante capacidade de, além de escrever, também organizar congressos e simpósios para divulgar os métodos quantitativos na Geografia e de editar coletâneas com trabalhos de pesquisadores ligados a essas técnicas.

A RBG 47 (1/2) jan./jun., 1985,  lista 20 trabalhos sobre urbanização, migrações internas, teoria, análise regional, desenvolvimento econômico, regionalização e divulgação dos métodos quantitativos de autoria de Faissol, entre 1970 e 1978. Como exemplos de coletâneas também organizadas por ele estão  Urbanização e Regionalização: relações com o desenvolvimento econômico (Faissol,1975),  trabalho de seleção de artigos de geógrafos e economistas de renome internacional como Berry, B. ; Perroux, F. ; Brown, L. ; Olsson, G. ; Lasuen, J.  ; Dacey,  M.   e   Tendências Atuais na Geografia Urbano /Regional: teorização e quantificação (Faissol,  1978), coletânea de artigos de 15 geógrafos e economistas brasileiros sob orientação de Faissol, que organizou a estrutura dos capítulos que vão da teorização, passando pelas técnicas de análise fatorial, análise de agrupamento, análise discriminante, correlação canônica, cadeia de Markov, medidas de desigualdade e concentração e análise da difusão de inovações.

Outra área dos estudos urbanos que, embora não esteja enquadrada na escala de atuação de uma agência do governo federal, que normalmente abrange o Brasil e suas macrorregiões, gerou muitos subsídios para o planejamento urbano foi a pesquisa intra-urbana. Além dos quatro trabalhos precursores de Jeronymo Cavalcanti e da atuação de  Everardo Backheuser, com uma série de 15 trabalhos no Boletim Geográfico sobre aspectos geográficos da cidade do Rio de Janeiro, na década de 40, a primeira grande pesquisa realizada por um  grupo da  Divisão de Geografia, sobre a área central do Rio de Janeiro, foi coordenada por Aluízio Capdeville Duarte em 1967, ainda no contexto das comemorações do 4o Centenário da Cidade ocorrido em 1965.  O grupo, composto de 13 pesquisadores colaboraram com 14 textos que explicavam as diferentes funções dessa área do Rio de Janeiro e analisavam alguns processos de transformação urbana ocorridos na década de 60.

Normalmente as incursões dos geógrafos da Divisão de Geografia neste assunto, restringiam-se aos cursos de Geografia Urbana que tratavam da cidade do Rio de Janeiro (IBGE, 1965, 1968) e ao livro didático de Ceçary Amazonas sobre a Guanabara (Amazonas, 1974).

No final dos anos 60, outro tipo de pesquisa obrigou a Geografia Urbana do IBGE a trabalhar numa escala quase local para o estabelecimento das nove áreas metropolitanas brasileiras (RBG v.31 n.4 out./dez. 1969). Mais uma vez a liderança de Faissol se fez notar, e muitos projetos foram desenvolvidos na escala intra-urbana, para subsidiar o segmento de estudos do processo de metropolização e de aglomerações urbanas.

A melhor fonte para análise desses trabalhos realizados por pesquisadores do IBGE foi a revisão feita por Maurício Abreu no final dos anos 80, apresentada no I Simpósio Nacional de Geografia Urbana de 1989 em São Paulo e publicada na RBG v. 56 n. 1/4 (Abreu, 1994) O Estudo Geográfico da Cidade no Brasil: Evolução e Avaliação. Apesar da estruturação dos tópicos apresentados não se encaixarem totalmente nos propósitos desta pesquisa, seu rastreamento bibliográfico foi de suma importância na avaliação dos estudos dos ibegeanos no que concerniu às pesquisas intra-urbanas.

Foram detectados 158 trabalhos realizados por geógrafos do IBGE dentro e fora do contexto editorial da casa, isto é, profissionais da agência escreveram, tanto em publicações editadas pelo IBGE ou em co-produção, quanto em outras publicações, que também foram computadas, em virtude deles estarem efetivamente trabalhando no órgão, por ocasião da publicação. Um exemplo disso foram as teses de pós-graduação que foram editadas pelas respectivas universidades, mas se foram realizadas por profissionais da casa, foram consideradas como trabalho da Geografia do IBGE. Por outro lado, 50 trabalhos versando sobre os estudos intra-urbanos e de autoria de profissionais de fora do IBGE foram verificados na bibliografia rastreada por Maurício  Abreu, com tendo sido publicados sob a chancela do IBGE, em revistas ou em edições monográficas.

Tal contagem foi importante para se acabar com a falsa impressão de que os estudos intra-urbanos não eram considerados prioritários pela alta direção da agência, apesar de se entender que esta escala de abordagem não seria o que normalmente se entenderia como objeto de análise de uma agência de planejamento territorial do governo federal.

Durante as décadas de 70 e 80, muitos desses 158 trabalhos de pesquisadores do IBGE contribuíram para o entendimento do processo de metropolização brasileiro ao teorizar sobre os processos de estruturação intra-urbana, classificar os principais agentes modeladores do solo urbano, públicos e privados e exemplificar suas ações (Bahiana, 1978, 1986), (Corrêa, 1976,1979, 1983 1983/84), (Almeida, 1980, 1982, 1986, 1987, 1997), (O’Neill, 1986), (O’Neill e Natal, 1988),  (Kossmann e Ribeiro, 1984), (Vetter e Massena, et al. 1979, 1981) e de estudar outros aspectos vinculados a estrutura intra-urbana de nossas cidades, principalmente o Rio de Janeiro, como renda da terra, mobilidade urbana, favelização, violência urbana, e aspectos culturais e perceptivos (Mello, N. D. C., 1981), (Bezerra e Cruz, 1982), (Bezerra, Cruz e Bahiana, 1983), (Massena, 1976,1983,1986), (Mello, J.B., 1986/87). Deste grupo, três personagens foram importantíssimos na orientação dessas pesquisas Roberto Lobato de Azevedo Corrêa, que no DEGEO e na UFRJ, orientou a maioria dos pesquisadores que desenvolveram teses e trabalhos internos sobre a estrutura interna das cidades, principalmente o Rio de Janeiro, a segunda foi Olga Maria Buarque de Lima Fredrich, que trabalhou intensamente no projeto de ecologia fatorial das metrópoles brasileiras e David Michael Vetter (economista do Departamento de Indicadores Sociais do IBGE), que além de trabalhar complementarmente no projeto de ecologia fatorial das metrópoles, orientou as pesquisas sobre a espacialização das políticas públicas de implantação de infra-estrutura na área metropolitana do Rio de Janeiro.

5 – Modernização da agricultura

A expressão modernização da agricultura tratará dos trabalhos de Geografia Agrária como um todo, mas dará ênfase aos estudos empreendidos a partir da década de 60, onde a preocupação com os processos de modernização das atividades ligadas ao mundo rural foram mais explicitadas. Os trabalhos anteriores de Geografia Agrária, na maioria dos casos, foram tratados no tópico de ocupação do território e habitat.

Foram  trabalhos que iniciaram uma aproximação maior com questões teóricas como o modelo de Von Thunen (Mesquita,1978), experimentaram técnicas estatísticas mais sofisticadas para estudar questões como concentração, diversificação e combinação de culturas, e que na década de 70 testaram alguns dos programas de análise fatorial e análise de agrupamento.

Nos anos 80, novas orientações enfocaram um outro expectro de problemas ao analisarem os efeitos do agribussines na concentração fundiária e tratarem com outra visão o acompanhamento da ocupação predatória das atividades rurais em todos os estratos de renda dos produtores, sejam eles ricos e tecnificados ou pobres e sem qualificação técnica. Além de se concentrarem no acompanhamento da evolução dos Complexos Agro-Industriais , entidades de amplo escopo que passaram a liderar as ligações entre o campo e a cidade, tanto na troca de insumos e maquinário, quanto nas trocas de mão de obra e nos serviços de transporte, comunicações e assistência financeira.

Ao trabalhos iniciais da Geografia do IBGE no campo das atividades rurais restringiam-se a informar alguns fatos da evolução da produção brasileira como um todo ou por produto, como é possível verificar nos trabalhos de Eloisa de Carvalho Teixeira (Teixeira, 1951, 1952, 1959).

O mais importante introdutor dos estudos agrários com cientificidade no IBGE foi Léo Waibel, ao combinar as pesquisas sobre colonização e Biogeografia, que atuavam como estruturas referenciais para se entender o processo de ocupação do território via atividade agrícola e de colocar na arena de estudos o primeiro artigo sobre a teoria de Von Thünen (Waibel, 1948),* e de publicar no Boletim Geográfico um artigo mais informativo e de comparações sobre o tema (Waibel, 1955). Seu livro Capítulos de Geografia Tropical e do Brasil  (Waibel,1958) foi uma espécie de síntese desses  conhecimentos.

Seus melhores discípulos foram, por conseguinte, os melhores geógrafos agrários do IBGE entre os anos 50 e início dos 60. Nilo Bernardes e Orlando Valverde.

Os trabalhos de Nilo concentravam-se nos processos de colonização de espaços do interior do país, mas também estruturou um quadro geral da agricultura brasileira nos anos 50 (RBG, v.23 n.2, abr./jun. 1961). A obra do Orlando valverde no contextos dos estudos agrários foi mais diversificada, iniciando com trabalhos vinculados aos processos de colonização e análise regional (Valverde, 1944, 1948) e enfocando processos agrários específicos na segunda metade da década de 50 (Valverde, 1955, 1957, 1958, 1959), além de no guia de excursão ao Planalto Meridional tratar com muito detalhe as características agrícolas da região (Valverde, 1957).

Na década de 60, Orlando concentra-se nos aspectos conceituais e de exemplificação de alguns temas de Geografia Agrária, como características de certas áreas rurais do nordeste (Valverde, 1961), conceituação de sistemas intensivo e extensivo, de “plantation” e de sistema de roças (Valverde, 1961, 1967, 1968, 1968), além de produzir os dois volumes do livro Geografia Agrária do Brasil (Valverde, 1964), resultado de suas pesquisas esboçadas em seu curso de Geografia Agrária Geral e do Brasil ministrado na AGB do Rio de Janeiro em 1957 . Seu trabalho, juntamente com Catarina V. Dias, sobre a rodovia Belém-Brasília, onde apresenta os processos de ocupação agrícola em espaços cortados por estradas de integração na região Norte e Centro Oeste abriu as primeiras pistas para a questão da importância do sistema urbano na Amazônia (Valverde e Dias, 1967). Posteriormente, no final dos anos 80, coordenando uma equipe multidisciplinar Orlando volta ao tema, focalizando a Amazônia Ocidental através da rodovia Transamazônica  (Valverde, 1989).

Ainda na década de 60, uma outra vertente de estudos foi iniciada por Elza Keller ainda na UNESP de Rio Claro, ao orientar em 1964, um grupo de professores e alunos de especialização principalmente quanto aos estudos de tipologia agrícola sob a orientação da Comissão de Levantamento Mundial de Utilização da Terra da UGI e contando com o apoio metodológico de Jerzy Kostrowicki da Polônia, que posteriormente presidiu a comissão. Os contatos de Kostrowicki com Elza Keller resultaram em linhas de pesquisa que enfocavam preocupações com a qualidade dos dados estatísticos a serem trabalhados nos futuros trabalhos. Em 1968 Elza Keller retorna ao IBGE, após sua experiência de ensino em Rio Claro, mas fica conhecida como uma pesquisadora que, nas palavras de Alexandre Felizola Diniz “lançou as bases de um movimento de profundas mudanças na Geografia Agrária Brasileira” (Diniz, 1984: 84).

Com a chegada de Isaac Kerstenetzky  à presidência do IBGE em 1970, o sistema estatístico da casa iniciou uma série de ações que sistematizaram as informações do segmento agropecuário e criaram outras campanhas, que acabaram por suprir de dados a área de Geografia Agrária do agora Departamento de Geografia (DEGEO). A principal pesquisadora que comandou esse processo de mudança nos trabalhos agrários foi Elza Coelho de Souza Keller, juntamente com Solange Tietzmann Silva e Olindina Viana Mesquita que continuaram o projeto, posteriormente tendo a colaboração dos geógrafos Rivaldo Pinto de Gusmão e Maristella de Azevedo Brito, da economista Sonia Rocha e da socióloga Sebastiana Rodrigues de Brito, além de contarem com o apoio técnico de pesquisadores como Ney Rodrigues Innocencio, Maria Elisabeth de Paiva Correia de Sá,  Luiz Sérgio Pires Guimarães, Dora Rodrigues Hees, Tereza Coni Aguiar, Maria do Socorro Brito e Adma Hamam de Figueredo, somado às informações de Mitiko Une quanto aos aspectos climatológicos vinculados às safras agrícolas.

Esse grupo desenvolveu linhas de trabalho em  regionalização agrícola em escala nacional, no contexto da obra Subsídios à Regionalização (Mesquita et all., 1968), regionalizações em escala estadual (RBG v.32 n.1,jan./mar.: 3-42,1970), testou os métodos quantitativos em tipologia agrícola (RBG v.32 n.4, out./dez.:41-86, 1970), (RBG v.36 n.1, jan./mar., 1974), além de terem trabalhado com essas técnicas nos capítulos temáticos da coleção Geografia do Brasil de 1977. Pesquisas sobre concentração de cultivos (RBG v.39 n.3, jul./set.: 137-143, 1977), armazenagem (RBG v.40 n.3, jul./set.: 52-130, 1978) e definiram proposições metodológicas sobre os estudos de desenvolvimento rural (RBG v.43 n.3, jul./set.:419-447, 1981) e iniciaram grandes projetos multidisciplinares em convênio com outras agências governamentais como a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), linha de pesquisa precursora dos grandes diagnósticos sócio-ambientais que foram implementados na segunda metade dos anos 80 e durante a década de 90 (IBGE, 1979).

As mudanças de orientação de enfoque dos trabalhos de Geografia Agrária ocorridas nos anos 80, puderam ser percebidas nos artigos e projetos que passaram a  enfatizar os aspectos sociais das fronteiras de ocupação ao longo das novas estradas de integração construídas na década de 70 . Problemas de qualificação da mão de obra rural (RBG v.46 n.1, jan./mar.: 5-78, 1984), marginalidade rural (RBG v.46 n.2, abr./jun.:227-361, 1984), estudos comparativos entre inserção tecnológica e marginalização de parte dos produtores rurais (RBG v.46 n.3, jul./set.:425-550, 1984, RBG v.48 n.4, out./dez.:503-533, 1986).

A estrutura de dados do IBGE que o setor agropecuário oferece aos pesquisadores, com censos agropecuários qüinqüenais (pelo menos até a década de 90), pesquisas mensais como o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), anuais como a Produção Agrícola Municipal (PAM), Pesquisa Pecuária Municipal (PPM), Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS) e semestrais como a Pesquisa de Estoques (PE), além de pesquisas específicas como o levantamento da soja, do leite, abate de animais, produção de couro, de ovos de galinha e estimativas sobre a previsão e acompanhamento de safras. Em virtude disso foram publicados muitos trabalhos de acompanhamento e evolução da agropecuária (RBG v.39 n.4, out./dez.:3-65, 1977 , RBG v.44 n.1, jan./mar.: 3-49, 1982 , RBG v.40 n.3/4, jul./dez.:52-130, 1978 , RBG v. 41 n.4, out./dez.:105-116, 1979 , RBG v.49 n.1, jan./mar.:3-10, 1987 , RBG v.50 n.1, jan./mar.:41-60, 1988).

No início dos anos 90, em função do convênio entre o IBGE (DEGEO) e a MAISON DE LA GÉOGRAPHIE de Montpellier , sob o apoio técnico de Philippe Waniez e Hervé Théry as geógrafas Dora Rodrigues Hees e Evangelina Xavier G. de Oliveira estiveram na França mapeando e comentando os dados do censo agropecuário de 1985, produzindo uma espécie de Atlas das Fronteiras Agrícolas do Brasil (Hess, Oliveira, Théry, Waniez, 1992).

No contexto atual do DEGEO apenas Hadma Hamman Figueredo ainda lidera as pesquisas agrárias, trabalhando com as conseqüências ambientais e políticas da ocupação em áreas de fronteiras de recursos (Figueredo, 1998) e orientando o mapeamento do tema, no Atlas Nacional do Brasil, no qual é também coordenadora geral,  a ser editado no fim do ano de 2000.

6 – Caracterizações Ambientais

Do conjunto de estudos que enfocaram o meio físico, escolhemos analisar os três segmentos mais importantes, que propiciaram a geração de muitos trabalhos e garantiram o desenvolvimento profissional de alguns geógrafos, como  também de profissionais de outras especialidades, principalmente geólogos, biólogos e engenheiros agrônomos.

A Geomorfologia, área da Geografia que trabalha com os processos formadores do modelado terrestre e que estrutura as principais tipologias relativas ao relevo do território.

A Climatologia, campo que espacializa o conjunto de informações que a Meteorlogia nos apresenta quotidianamente, e que apresenta quadros de referência sobre temperatura, pressão do ar, regime de ventos, precipitações etc. tanto sob a forma de mapeamento, quanto sob a forma de textos explicativos dos processos de médio e longo prazo que garantem uma dada classificação climática mais geral.

A Biogeografia, segmento de estudos que trata da espacialização da cobertura vegetal e da ocorrência de animais, que em combinação com especializações como Botânica e Zoologia explicam uma grande parte de que se convencionou chamar de Meio Ambiente. Atualmente, verifica-se uma grande sinergia com a Ecologia, que estuda em detalhes as relações entre os seres vivos num dado segmento espacial.

Este conjunto de saberes foi, nas primeiras décadas de atuação do IBGE, altamente prestigioso, tendo como iniciadores, profissionais como Emmanuel De Martonne com seu clássico Problemas Morfológicos do Brasil Tropical Atlântico (RBG v.5,n.4,p.523-550, out./dez.,1943), Alberto Ribeiro Lamego, autor da coleção O Homem e ….. (Lamego, 1945, 1946, 1948, 1963), além de mestres estrangeiros que foram os principais formadores da primeira geração de profissionais como o francês Francis Ruellan na Geomorfologia e o canadense Pierre Dansereau na Biogeografia.

Ruellan, além de produzir artigos que tornaram-se clássicos (Ruellan, 1944, 1949), formou profissionais como Alfredo Porto Domingues ,que dominou com maestria os conhecimentos integrados entre Geologia, Biologia e Climatologia tornando-se um dos mais completos geógrafos físicos da casa. Seus trabalhos na Enciclopédia dos Municípios Brasileiros e sua série de artigos sobre as características geológicas e morfológicas do estado da Bahia (Domingues, RBG v.9n.1, p.57-82, jan./mar. 1947; RBGv.9, n.2,p.185-248, abr./jun.1947;  RBGv.10,n.2,p.255-287, abr./jun.1948 ).

Antônio Teixeira Guerra, um dos supervisores geográficos da Enciclopédia do Municípios Brasileiros e considerado um dos mais produtivos geógrafos do IBGE com 30 artigos na RBG, 45 no Boletim Geográfico, 12 artigos em publicações avulsas, como os Cursos de Férias para Professores e autor do Dicionário Geológico-Geomorfológico ,obra editada nos anos 60 e reeditada em 1999 por seu filho, também geomorfólogo, que também trabalhou no IBGE na década de 70 e que atualmente leciona na UFRJ (Guerra, 1966). Amélia Alba Nogueira, autora de todos os capítulos de Geomorfologia da coleção Geografia do Brasil de 1977 * e Gelson Rangel Lima que chefiou o Setor de Geomorfologia do DEGEO na década de 70

São também da década de 70 a coletânea de comentários sobre 201 fotos do relevo brasileiro organizado por Celeste Rodrigues Maio (Maio, 1973) e reeditada em 1980 e o compêndio Fundamentos de Geomorfologia da professora da Faculdade de Rio Claro (atual UNESP) Margaria da Maria Penteado (1974). Ambas as obras foram os principais instrumentos de estudo dos alunos de Geomorfologia de muitas universidades brasileiras.

No campo da Biogeografia, o primeiro trabalho classificatório da vegetação brasileira foi elaborado por Lindalvo Bezerra dos Santos no Boletim Geográfico como contribuição didática e que foi considerado como a primeira tipologia apoiada nos aspectos fisionômicos das formações vegetais brasileiras (Santos, 1943).

Na segunda metade da década de 40, a permanência no IBGE do canadense Pierre Dansereau  que, além de produzir trabalhos sobre Biogeografia (Dansereau, 1946, 1947, 1949)  formou profissionais como Edgar Kuhlmann (1951, 1952, 1954) e Dora Amarante Romariz (1953, 1974) além de completar a formação de engenheiros agrônomos como Alceo Magnanini (1952, 1952, 1961, 1961), Walter Alberto Egler (RBG v.13,n.2,p.223-264,abr./jun.,1951;RBG,v.13,n.4,p.577-590,out./dez.,1951) e Fernando Segadas Vianna (1964).

No campo da Climatologia, apesar de não ter havido um professor “visitante” que tivesse formado profissionais por meio de cursos e treinamento específico, alguns geógrafos do IBGE dedicaram-se a estudar aqui e no exterior o assunto.

Nos primeiros anos de estruturação do IBGE o estudo da Climatologia era feito por engenheiros como José Carlos de Junqueira Schmidt  e Jorge de Sampaio Ferraz que preocupavam-se com métodos classificatórios e, paralelamente, caracterizavam algumas regiões brasileiras (Ferraz, RBG v.1n.3, p.3-15, jul./set., 1939) , Schmidt ( RBG v.4n.3, p.465-500, jul./set., 1942 ; RBG v.11n.1, p. 123-124, jan./mar, 1949). Na RBG v.1 n.3 há também um comentário na página 135, do mesmo Jorge Ferraz sobre uma questão que continua atual: Aumentou a temperatura do mundo?

O primeiro geógrafo do IBGE a tratar do assunto foi Jorge Zarur, ao comentar a classificação climática de Köppen  (Zarur, RBG v.5 n.2, p.250-254, abr./jun., 1943).

Até a década de 50, período em que a Climatologia passa a ser estudada mais sistematicamente por alguns profissionais da Geografia do IBGE, o mais importante produtor de artigos sobre o tema, foi o paulista José Setzer, pedólogo do Departamento de Produção Vegetal do Estado de São Paulo e professor da USP, que enfatizava as questões sobre precipitação e suas relações com a produtividade agrícola (Setzer,  RBG v.8 n.1, p.3-70, jan./mar., 1946 ; RBG v.8 n.3, p.317-350, jul./set., 1946 ; RBG v.16 n.3, p.315-328, jul./set., 1954).

O primeiro grupo de especialistas em Climatologia no IBGE foi formado por Lysia Bernardes, que na década de 60 abandonaria o tema e iria dedicar-se à Geografia Urbana (RBG v.13 n.3, p.473-479, jul./set., 1951 ; RBG v.13 n.4, p.619-620, out./dez. 1951 ; RBG v.14 n.1, p.57-80, jan./mar. 1952), Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, que se tornaria um dos mais completos climatólogos do Brasil, trabalhando com clima urbano (Monteiro, RBG v.13 n.1, p.3-46, jan./mar., 1951) e Ignez Amélia Leal Teixeira Guerra, esposa de Antônio Teixeira Guerra, com uma incursão no tema caracterizando o clima da Região Nordeste  ( Guerra, Ignez  RBG v.17 n.4, p.449-496, out./dez. 1955).

Nos anos 60, Marília Galvão durante seu estágio de especialização na França, conheceu o trabalho classificatório de  Henri Gaussen e Francois Bagnouls baseado nas relações entre clima e vegetação. Os resultados desse processo foram divididos em dois tipos de atuação, o primeiro sob a forma de um artigo sobre as regiões bioclimáticas do Brasil (Galvão, RBG v.29 n.1, p.3-36, jan./mar., 1967) e o segundo, sob a forma de orientação profissional inicial de Edmon Nimer no campo da Climatologia. Edmon Nimer tornou-se o mais importante climatólogo do IBGE, a partir da segunda metade dos anos 60 até sua aposentadoria nos anos 90. Sua produção neste período foi notável, com 12 artigos na RBG, principalmente por ser responsável por uma série  que abordou a climatologia de todas as regiões brasileiras entre o final de 1971 e todo o ano de 1972, e por todos os capítulos de Clima da coleção Geografia do Brasil de 1977.

Outra faceta importante de Edmon Nimer foi sua capacidade de formar profissionais. Na década de 70 o Setor de Climatologia, chefiado por ele era um dos mais dinâmicos do DEGEO, destacando-se  os estagiários Arthur  A. P. Filho e Elmo Amador, este último transferiu-se para lecionar na UFRJ, e após sua aposentadoria, atualmente trabalha em consultoria ambiental monitorando o ecossistema da Baía de Guanabara, tema de sua tese de doutorado na UFRJ (Amador, 1997). No início dos anos 70, Nimer auxiliou os dois na publicação de um artigo sobre climatologia dinâmica na região nordeste (Nimer, E. ; Filho, A..; Amador, E.  RBG v.33n.1, p.3-38, jan./mar., 1971).

Nos anos 80, Edmon Nimer orientou a formação profissional de Ana Maria P. M. Brandão (Nimer e Brandão, 1981)que, após terminar seu doutoramento na USP, aposentou-se do IBGE nos anos 90, indo também lecionar na UFRJ.

Seu espírito de colaboração com o IBGE pode ser medido por seu auxílio à coleção Geografia do Brasil do início dos anos 90. No volume do Sudeste, quando houve desistência do autor do capítulo de Clima, Nimer, já aposentado, prontificou-se imediatamente a produzir um capítulo sobre o tema, apresentando-o em tempo recorde em 1993, sem nenhuma exigência de qualquer tipo. Nimer faleceu em 2004.

O segmento dos estudos ambientais do IBGE sofreu duas grandes inflexões, uma na década de 60, com o crescimento dos estudos de Geografia Humana, principalmente nas áreas de agrária e urbana e uma aparente queda de status que se configurou com mais clareza na década de 70. O resultado dessa primeira inflexão foi a criação da Superintendência de Recursos Naturais  e Meio Ambiente (SUPREN) em 1975 e a separação dos profissionais de Geografia Física dos de Humana que agora estariam na Superintendência de Estudos Geográficos e Sócio-Econômicos (SUEGE).

Uma das grandes linhas de trabalho da SUPREN foi organizar os estudos de ecologia animal do cerrado do planalto central brasileiro, contando com a criação da Reserva Ecológica do Roncador na periferia de Brasília e estabelecendo convênio técnico com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA). Um dos produtos desse convênio foi o livro Fauna do Cerrado organizado por Claudia Cotrim C. da Costa e colaboradores (IBGE, 1981) que apresenta uma lista preliminar das aves, mamíferos e répteis da área estudada.

Foi também desse período, a publicação da obra de Jean Tricart Ecodinâmica (1977), comentada por Luiz Roberto Tommasi na RBG v.39,n.4,p.215-223,out./dez. 1977 e que inicia uma preocupação com as relações entre seres humanos e meio ambiente no sentido mais amplo, enquadrando neste processo as principais correntes de Geografia Física.

7- Diagnósticos Ambientais e Sócio-Ambientais Integrados

A segunda grande inflexão ocorreu em 1985, com a absorção pelo IBGE, do Projeto RADAMBRASIL com toda sua estrutura de pessoal e equipamentos, inaugurando uma nova fase de trabalhos voltados para os grandes diagnósticos ambientais integrados. No início, a chamada integração não ia muito além dos segmentos da Geografia Física e da Biologia, para pouco a pouco incorporar também áreas da Geografia Humana como Urbana e Agrária, gerando um novo conjunto de grandes trabalhos conhecidos como diagnósticos sócio-ambientais integrados como o Diagnóstico Brasil, coordenado por Rivaldo Pinto de Gusmão (IBGE,1990), que acompanhou os diferentes processos de ocupação do território brasileiro, estabelecendo relações com algumas segmentos do meio ambiente, como no caso da poluição industrial.

Projetos de Proteção do Meio Ambiente e das Comunidades Indígenas – PMACI I (IBGE, 1990) e PMACI II (IBGE, 1994), coordenados por Irene Braga de Miguez Garrido Filha  e Ailton Antônio Batista de Oliveira e Teresa Cardoso da Silva, que avaliaram os impactos ambientais e sócio-econômicos do asfaltamento de dois trechos da rodovia BR 364 entre os estados de Rondônia e Acre. A análise sócio-ambiental dos módulos territoriais da Região Amazônica referentes ao Programa Nossa Natureza realizado no período final do governo de José Sarney (não publicado) e o Diagnóstico Ambiental da Amazônia Legal , coordenado por Antônia Maria Martins Ferreira (IBGE, 1993) que estabeleceu uma regionalização de espaços identificados por suas características ambientais. Além de distinguir áreas de conflito entre as ações humanas (extrativismo e agropecuária) e a capacidade de sustentabilidade desses ambientes.

Para se ter uma medida da complexidade de interação entre as unidades departamentais do IBGE, IPEA e USP em projetos integrados como os do PMACI I e II, deve-se verificar as páginas de créditos (IBGE, 1990, p.5, p.131-132) e constatar que aproximadamente 220 profissionais tomaram parte nas diferentes tarefas técnicas e administrativas que envolveram estes diagnósticos.

O processo de absorção do RADAMBRASIL foi altamente positivo para o segmento de Geografia Física do IBGE, pois foram incorporadas equipes regionais sediadas em Belém (PA), Salvador (BA), Goiânia (GO) e Florianópolis (SC) que contam com excelentes profissionais em Geomorfologia, Pedologia, além de especialistas em áreas da Biologia e engenheiros agrônomos e florestais.  Foi no contexto de trabalho realizado anteriormente pelas equipes do RADAMBRASIL nessas unidades regionais que o IBGE passou a se integrar mais com secretarias estaduais de planejamento e de meio ambiente, realizando projetos de Geografia em escala estadual ou meso-regional, como no caso do estudo do uso agrícola da terra no sudoeste de Goiás em convênio com a EMBRAPA (IBGE, 1989) e do estudo geomorfológico da área de Rondonópolis –MT (IBGE, 1989).

O primeiro coordenado por Antônio José Teixeira Guerra (filho de Antônio Teixeira Guerra) antes de sua transferência para a UFRJ, onde atualmente leciona. O segundo, coordenado por Válter de Jesus Almeida  e Wilson Duque Estrada Regis (IBGE, 1989). Na década de 90 a integração entre os profissionais de Geografia humana e os de física foi finalmente alcançada com os projetos do Programa Nossa Natureza na Amazônia, PMACI, Diagnóstico da Amazônia Legal, da áreas periféricas de Brasília e da aglomeração de Goiânia no Centro-Oeste e na região sul com o projeto de Gerenciamento Costeiro de Santa Catarina.

Além disso, os projetos de Atlas Nacional do Brasil, também tenderam a aproximar esses profissionais, principalmente nas fases de planejamento, diminuindo as diferenças antes percebidas. Para isso contribuíram geógrafas como Solange Tietzmann Silva, Maria Monica O’Neill, Tereza Coni Aguiar, Hadma Hamann de Figueredo, Olga Schild Becker e Irene Garrido Filha que ao coordenarem suas respectivas áreas de Geografia Humana, trabalharam para uma suave integração com os pesquisadores da física e os do campo biológico.

As Atividades de Geoprocessamento

O contexto tecnológico e operacional onde se estabeleceram os projetos de geoprocessamento no IBGE datam da década de 70 com as experiências de softwares  como o SYMAP e SYNWU que mapeavam superfícies pré-determinadas, onde eram plotados dados específicos. Foram muito testadas áreas urbanas, com seus respectivos valores da terra (preços do m2 de terreno ou valor do imposto territorial urbano). Os mapas construídos não possuíam muita precisão cartográfica, mas davam uma boa noção espacial ou tridimensional do fenômeno.

Com o advento dos novos sensores colocados nos satélites militares americanos e soviéticos, além das tecnologias derivadas da corrida espacial para garantia da localização dos artefatos espaciais utilizados nas atividades de exploração do ambiente extra terrestre, foi concebida uma rede virtual de coordenadas geográficas de grande precisão que era plotada por sistemas de satélites que enviavam sinais eletromagnéticos e garantiam resposta quase imediata a determinados aparelhos receptores que se deslocavam na superfície da terra. Estava criado o Sistema de Posicionamento Global (GPS). Os sistemas iniciais vinculavam-se a navios (Imarsat) e controlavam aviões. Posteriormente esses receptores diminuíram de tamanho e passaram a garantir a qualidade das medições geodésicas e a influenciar decisivamente na precisão e barateamento das campanhas geodésicas e cartográficas.

Esses sistemas  são a base do que chamaremos em termos gerais de geoprocessamento. Processos de determinação cartográfica (plotagem) de pontos e linhas que se inserem na rede de coordenas geográficas e que podem ser referenciadas a qualquer tipo de informação  guardados em bancos de dados que possam referenciar esta informação a qualquer ponto da rede de coordenadas (georreferenciamento). Essa a base operacional dos atuais Sistemas de Informação Geográficas (SIG ou GIS em inglês).

A partir de 1994 as atividades de Geoprocessamento no IBGE atingiram um estágio que obrigou a alta direção da casa a estabelecer um grupo de trabalho com integrantes das diretorias de Geociências, Pesquisas e Estudos, Informática e Disseminação de Informações para avaliar o desenvolvimento das tecnologias e estabelecer as diretrizes básicas dessas atividades para o futuro.

As principais diretrizes que envolvem essas atividades no IBGE, foram descritas no documento Geoprocessamento no IBGE redigido por este grupo de trabalho (IBGE, 1994).

* Uma versão em inglês desse trabalho foi incluída no livro de contribuições do IBGE a 23a Assembléia Geral  da UGI em Moscou, (IBGE,1976c).

* O modelo de Von Thünen foi novamente discutido por Olindina V. Mesquita em sua tese de mestrado na UFRJ em 1978 e publicada na RBG v.40 n.2, abr./jun.: 60-130, 1978.

* Geógrafa desaparecida em acidente de avião do Projeto RADAMBRASIL no litoral sul fluminense.