Teaching Geography to geographers: recollection of the field training in the context of the Brazilian Institute of Geography (IBGE, in portuguese) and the Brazilian Geographers Association (AGB, in portuguese)

Roberto Schmidt de Almeida

Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro

Av. Augusto Severo, n° 8, 10° andar, Glória, Rio de Janeiro, RJ. CEP: 20.021-404. Brasil.

almeidar1@br.inter.net

RESUMO

Através da relação entre a pesquisa documental e o estudo dos depoimentos orais de pesquisadores de Geografia, foi possível conhecer melhor os métodos de treinamento profissional que eram utilizados nas duas instituições de pesquisa geográfica fora do meio universitário formal nas décadas entre 1940 e 1960. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), especificamente no contexto do Conselho Nacional de Geografia (CNG), área da instituição que abrigava os estudos geográficos sobre o território brasileiro, e a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), agremiação profissional e cultural que promovia a difusão dos estudos geográficos. Em ambos os casos, foram analisadas as técnicas de treinamento profissional que visavam qualificar os geógrafos para o trabalho de campo, tanto no segmento da Geografia Física (Geomorfologia, Climatologia, Estudos de Solos, Biogeografia…), quanto no segmento da Geografia Humana e Econômica (População, Estudos Rurais, Regionalização, Urbana, Industrial…).

Palavras Chave: Formação de Pesquisadores, Geografia, Treinamento de Campo.

ABSTRACT

Through the relation between the documental research and the study of the oral attests of the Geography reserchers, it was possible to get to know better the professional training methods that were used by the two institutions of Geography

research outside the university formal way between the 40’s and 60’s. The Brazilian Institute of Geography and Statistics (IBGE, in portuguese), specifically in the context of the Nacional Geography Council (CNG, in portuguese), area of the institute that comprises the geographic studies about the brazilian territory. And the Brazilian Geographers Association (AGB, in portuguese), professional and cultural assembly that promotes the diffusion of these geographic studies. In both cases the professional training techniques that aimed to qualify the geographers to the training field were analyzed, even in the segment of the Physical Geography (Geomorphology, Climatology, Soil Studies, Biogeography…) and in the segment of the Human Geography and Economics (Population, Rural Studies, Urban and Industrial Regionalization…).

Keywords: Geographers Formation, Geography, Field Training.

  1. INTRODUÇÃO: O AMBIENTE TÉCNICO E POLÍTICO DA GEOGRAFIA NO RIO DE JANEIRO,
    EM SEUS PRIMEIROS ANOS DE ATIVIDADE

Durante as décadas de 40 e 50, a Geografia brasileira estava dividida em dois grandes segmentos: o que produzia conhecimento para uso na estrutura de ensino, com a formação e o aperfeiçoamento do corpo docente, através dos cursos superiores de Geografia estruturados na Universidade, e o segmento voltado para a estruturação do sistema de planejamento territorial, do qual o IBGE passou a ser o principal agente, tanto pelo lado da Estatística, quanto pela Geografia, Geodésia e Cartografia.

No entanto, apesar dessa aparente dicotomia, ambos sempre estiveram em perfeita conexão, em virtude de suas origens comuns. Entre meados dos anos 30 e o início dos 40, a criação quase simultânea dos cursos formais de Geografia, tanto em São Paulo, na Universidade de São Paulo (USP), posteriormente liderado por Pierre Mombeig, quanto no Rio de Janeiro, através da Universidade do Distrito Federal (UDF), depois transformada em Universidade do Brasil (UB, atual UFRJ), e a estruturação do sistema de planejamento territorial do governo federal no IBGE foram processos gestados por uma estrutura organizada pelo Governo Vargas. Muitos processos foram gerenciados no nível acadêmico, entre 1934 e 1939, pelo geógrafo francês Pierre Deffontaines, que também foi o criador da Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), além de professores brasileiros como Carlos Delgado de Carvalho, Everardo Backheuser, Fernando Antônio Raja Gabaghlia e outros. No entanto, é fundamental que se entenda que essa organização técnica foi elaborada num contexto político de nível mais alto, por personalidades como Juarez Távora (Ministro da Agricultura), Francisco Luis da Silva Campos (Ministro da Educação e Justiça), Gustavo Capanema (Ministro da Educação), José Carlos de Macedo Soares (Relações Exteriores), Mário Augusto Teixeira de Freitas (organizador do sistema estatístico nacional) e Christóvão Leite de Castro (estruturador do núcleo inicial de geógrafos do futuro Conselho Nacional de Geografia). Portanto, as Geografias da academia e do sistema de planejamento no Brasil nasceram juntas e foram organizadas tecnicamente, no caso do Rio de Janeiro, pelo mesmo profissional (Deffontaines), que seguia os cânones da escola francesa de Vidal de La Blache.

A vinda posterior de outro pesquisador e professor, também francês, Francis Ruelan, entre 1940 e 1956, intensificou essas relações entre os geógrafos cariocas e a Geografia francesa, principalmente em virtude do longo período de sua permanência e de seu forte carisma, para formação de um grande número de profissionais, tanto para ensino quanto para pesquisa.

Porém, no mesmo período (1940), aconteceu a invasão nazista à França, impedindo as relações culturais com o Brasil e gerando, como consequência, no âmbito do IBGE, uma reorientação de relacionamentos profissionais com algumas universidades americanas, sob a égide do governo dos Estados Unidos, preocupado em garantir a continuidade da influência dos Aliados e construir um anteparo à influência dos nazistas.

Foi sob essa reorientação que o governo americano convidou o IBGE a enviar para os Estados Unidos, em 1942, o geógrafo brasileiro Jorge Zarur, que se pós-graduou no curso mestrado da Universidade de Wisconsin, além do posterior envio, em 1945, de mais cinco geógrafos ibegeanos para estudos de aperfeiçoamento em universidades americanas – Fábio de Macedo Soares Guimarães e Orlando Valverde para Winscosin; Lúcio de Castro Soares e Lindalvo Bezerra dos Santos para Chicago e José Veríssimo da Costa Pereira para Northwestern. Com isso, abriram-se também outras linhas de pesquisas, principalmente na área de estudos regionais, na metodologia de pesquisa de campo e no processo de colonização.

Foi nesse novo contexto que chegou o alemão Leo Waibel, radicado nos Estados Unidos, para trabalhar exclusivamente no IBGE com processos de colonização, tendo sido indicado por Fabio de Macedo Soares Guimarães e Orlando Valverde, seus alunos em Winconsin, a Christóvão Leite de Castro, Secretário Geral do agora Conselho Nacional de Geografia (CNG).

A demanda governamental para o estudo dos processos de ocupação do território via mecanismos de colonização, de certa forma, deu o tom das principais orientações de pesquisa como, por exemplo, os estudos do habitat rural, além das novas interpretações dos processos geomorfológicos. Paralelamente a isso, os estudos urbanos também já estavam desenvolvendo-se, principalmente com os trabalhos de Deffontaines, no Rio, e Mombeig em São Paulo (DEFFONTAINES, 1944; MOMBEIG, 1943).

Na segunda metade da década de 40, a Geografia foi convocada a definir algumas possíveis localizações para a futura implantação do novo Distrito Federal em alguma área do Planalto Central. Era uma espécie de diagnóstico integrado, pois necessitava de avaliações de caráter físico e econômico em duas escalas distintas: a local, para fins de implantação física da futura cidade, e a regional, que teria de dar conta das futuras relações econômicas e demográficas da nova capital (CASTRO, 1947; GUIMARÃES, 1949). Mais uma vez, a relação entre a universidade e o sistema de planejamento (IBGE) mostrou-se forte, com equipes distintas (Francis Ruelan com a equipe da universidade e Leo Waibel com a equipe do IBGE) em áreas separadas, mas operando em conjunto para não desperdiçar esforços.

Nesse pano de fundo, aqui serão detalhados alguns processos de treinamento profissional que, diferentemente das aulas da universidade, visavam preparar o pesquisador iniciante na tarefa de investigação geográfica. Foram escolhidas duas arenas de capacitação: a primeira, ligada diretamente ao IBGE, conhecida como Tertúlias Geográficas, e a segunda, vinculada a uma associação cultural / profissional, a Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB), representada aqui pelas primeiras Assembleias Nacionais de Geografia, que se realizaram entre as décadas de 40 e 60.

  1. ENSINANDO A PESQUISAR GEOGRAFIA NO GABINETE E NO CAMPO: AS TERTÚLIAS GEOGRÁFICAS DO CNG E AS PESQUISAS DE CAMPO DAS ASSEMBLEIAS DA AGB

A tênue fronteira entre a subserviência, necessária nas fases iniciais, e a autonomia profissional, a ser conquistada a posteriori, foi sempre medida por um instrumento crucial: o conhecimento técnico. Certas habilidades também garantiam pontos preciosos para o iniciante. Os exemplos de Miguel Alves de Lima e de Solange Tietzmann Silva, que evoluíram de desenhistas cartográficos à carreira de geógrafo – Miguel chegou ao posto de Secretário Geral Conselho Nacional de Geografia e Solange a chefe do departamento de Geografia –, e que, coincidentemente, tiveram ótimas ascensões a postos de direção, são pontos de referência para um entendimento de que suas habilidades no desenho e a perseverança em continuar os estudos em direção ao patamar do ensino superior foram recompensadas ao longo de suas trajetórias profissionais.

As tarefas enfadonhas do início da carreira deviam ser filtradas pelo olhar de longo prazo, usando-se a máxima popular de que “nada é tão ruim que dure eternamente” e temperadas com um entusiasmo contido, sem maiores vassalagens, para não dar a impressão de que se estava muito satisfeito com certas tarefas repetitivas, mas que se entendia a necessidade do trabalho.

Nesse campo, as maiores reclamações sempre vieram de profissionais que perceberam que alguns de seus superiores hierárquicos, em certas ocasiões, não sabiam o que pediam, gerando, em muitos casos, uma profusão de tabelas e mapas sem objetivos muito precisos que, muitas vezes, eram descartados logo depois.

Olga Buarque de Lima fala de uma geração massacrada, que a antecedeu em seu ingresso na casa, quando avaliava a atuação gerencial de Lísia Maria Cavalcanti Bernardes, chefiando a última fase da Divisão de Geografia antes de tornar-se Departamento em 1968:

Ela era entusiasmadíssima, aquilo passava… trabalhar com ela foi uma das grandes coisas que me aconteceu… era um prazer trabalhar com Lísia, ela dizia ‘eu quero isso’… ela não te amolava absolutamente, era apenas ‘eu quero isso’, o que você tivesse de dúvidas você ia lá e perguntava… ela dava aquelas orientações todas diretíssimas, extremamente objetivas, quer dizer, criou entusiasmo… até essa fofoca de ter trocado os velhos pelos novos… de ter posto aquele pessoal mais moço nas chefias de serviços da Divisão de Estudos Sistemáticos foi importantíssimo. (…) Foi o Roberto Lobato em Geografia urbana, Edmon Nimer no clima, Olindina Mesquita na agricultura, eu fiquei na área de população, quer dizer, então formou técnica e gerencialmente… preparou o pessoal dessa geração que ingressou no final dos anos 50… porque se você ver bem… a geração anterior… a nossa também foi um pouco, mas a outra geração foi completamente massacrada, quer dizer, a geração que ingressou no início dos anos 50… quem é que ficou ali um pouco mais de destaque… o Aluísio Capdeville e a Hilda da Silva, que morreu em Chicago, Maria Francisca e mais a Rute Magnanini… mas a Rute Magnanini talvez fosse um pouco entre as duas… não sei… mas, de certa maneira, a Rute Magnanini e a Maria Francisca, que foram ótimas técnicas, mas você repara que elas nunca tiveram a força que elas poderiam ter tido… isto é, terem um papel de destaque maior na área de pesquisa…” (LIMA, 1998).

A constatação de Olga possivelmente teve sua razão de ser, pois foi nos anos 50 que houve uma maior demanda do IBGE por geógrafos que, pelo maior número envolvido, não tiveram as mesmas chances dos anteriores, daí ser possível perceber uma nítida fronteira entre os poucos que se destacaram e a maioria que era “normal”. Só que quase não existiram “normais” na Velha Guarda, eram poucos, foram muito bem treinados e assumiram todos os cargos técnicos que foram sendo criados ao longo da estrutura. Esse sentimento de separação entre a minoria dos considerados mais capazes e inclinados à liderança técnica (“A Velha Guarda”) e a maioria dos “normais” somente pode ser percebido do final da década de 50 em diante, quando o contingente de pesquisadores aumentou e os esquemas de treinamento que eram operados até então não puderam mais ser realizados naquela escala.

Os exemplos de Deffontaines, preparando um grupo mínimo de fundadores, e o de Ruellan, formando efetivamente a geração da “Velha Guarda” em escala mais geral, considerando o universo de profissionais em questão, somados ao papel representado por especialistas visitantes como o canadense Pierre Dansereau na BioGeografia, o teuto-americano Leo Waibel na agrária, o americano Preston James na colonização e o francês Jean Tricart na Geomorfologia, foram modelos de referência da estruturação de uma elite de profissionais que foi considerada quase como uma unidade, apesar das lutas pelo poder e das preferências político-partidárias que passaram a acontecer principalmente após 1945.

Guardadas as diferenças que podem ser percebidas entre esses formadores, tanto em termos de dedicação à pesquisa e vontade de ensinar quanto em termos de especialidades nos diversos ramos da Geografia, é importante destacar um mecanismo geral de aperfeiçoamento profissional, representado pelas Tertúlias Geográficas do CNG, que ocorreu nos anos finais dos 30 e em toda década de 40.

Uma Tertúlia era, antes de tudo, um fórum técnico onde eram debatidos os principais projetos de pesquisa do CNG, principalmente aqueles que implicavam grandes trabalhos de campo, que incluíam aplicação de questionários, análise da paisagem e coleta de material (vegetal, mineral, animais etc.). Tudo era debatido à exaustão e cada projeto era avaliado por seus pares e, em alguns casos, por profissionais de outras instituições de governo (o segmento militar participava com muita frequência dos debates, principalmente quando os projetos envolviam regiões detalhadas por expedições militares anteriores).

Um profissional treinado num fórum como esse tinha grandes possibilidades de tornar-se um bom organizador de pesquisa de campo. Além disso, após os trabalhos de campo e os de gabinete, que ocorriam na fase posterior ao campo ou, em outras palavras, quando o relatório estava concluído, ocorria a segunda Tertúlia, isto é, a reunião de apresentação dos resultados do trabalho e as discussões para aprovação ou não do desempenho dos profissionais envolvidos. Uma boa descrição das Tertúlias foi feita por Everardo Backheuser no Boletim Geográfico (BACKHEUSER, 1943).

Algumas reputações foram elevadas ou destruídas nessas Tertúlias, mas, sem dúvida alguma, o saldo foi fortemente positivo, principalmente quando se avalia o desempenho dos profissionais considerados posteriormente como a “Velha Guarda da Geografia do IBGE”.

Com a ampliação dos mecanismos de contratação de profissionais para o governo federal que ocorreu após 1945, o novo quadro funcional da Geografia do IBGE, a partir dos anos 50, não mais podia considerar esse novo contingente de profissionais como homogêneo nem dar aos geógrafos um treinamento quase pessoal, baseado nas Tertúlias da década anterior, gerando, assim, algumas dicotomias que se acentuaram ao longo dos anos seguintes, acompanhando, em paralelo, a progressiva decadência do ensino universitário em formar pesquisadores, a não ser em poucos centros de excelência.

No entanto, ainda havia um processo paralelo de formação de pesquisadores que utilizava a avaliação entre pares e que também garantia o acesso de qualquer geógrafo aos trabalhos e metodologias utilizados pelos considerados líderes de suas especialidades. Esse processo era organizado por uma instituição chamada Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) e era por ela que os geógrafos das novas gerações do IBGE podiam testar seus conhecimentos teóricos e suas aptidões práticas, através de variados modelos de aprendizado.

Uma reunião da AGB impunha aos seus organizadores uma logística muito sofisticada, pois envolvia, além dos espaços tradicionais onde se realizavam as apresentações e os cursos especializados, a preparação de uma pesquisa de campo em alguma área do conhecimento geográfico físico ou humano, com todas as etapas possíveis que uma pesquisa requeria, isto é, equipamentos e pessoal treinado para auxiliar o pesquisador que coordenaria a pesquisa (geralmente um líder inconteste em sua área, podendo ser dos quadros do IBGE ou de alguma universidade considerada de primeiro nível). Essas eram variáveis cruciais nessa logística de preparação e é importante lembrar que as assembleias da AGB sempre ocorriam em cidades médias e que os principais professores e pesquisadores que iriam realizar a pesquisa, na maioria dos casos, não residiam lá e iam da capital do estado (geralmente de uma universidade), da cidade do Rio de Janeiro (geralmente garantido pelo IBGE) ou da cidade de São Paulo (geralmente garantido pela USP).

Após os trabalhos de pesquisa de campo, as equipes reuniam-se em espaços previamente preparados para tabular os resultados, desenhar os gráficos e mapas, escrever os relatórios e treinar as apresentações orais sob a supervisão dos chefes de equipes que, por sua vez, eram supervisionados pelo coordenador geral da pesquisa. Esse tipo de treinamento proporcionava a todos uma oportunidade de aprendizado de pesquisa, mesmo aos considerados “iniciantes”, que podiam, assim, equalizar seus conhecimentos com os mais capazes e aprender com eles.

Para os mais avançados era dada a oportunidade de serem avaliados por seus pares, apresentando trabalhos previamente aprovados por uma comissão de programa e discutidos num fórum semelhante às Tertúlias Geográficas, que ocorriam no âmbito do IBGE na década de 40. Após a apresentação do pesquisador, era dada a palavra aos sócios titulares que faziam a avaliação e discutiam entre si e com o apresentador todos os aspectos técnicos do trabalho.

Obviamente, o pesquisador teria de mostrar sua determinação e perseverança no trato dos assuntos técnicos exigidos ou a sua genialidade, se fosse o caso. Na maioria das vezes, o processo de aceitação de um profissional por seus pares nas reuniões da AGB durava algumas assembleias e, mesmo antes, o principiante tinha de participar na condição de ouvinte e ser treinado nas equipes dos trabalhos de campo das assembleias, até que pudesse ser aceito como produtor de trabalhos a serem apresentados nos fóruns de debate.

Roberto Lobato Corrêa exemplificou a sua trajetória como agebeano inicialmente vinculando-a à sua “aceitação” preliminar na AGB carioca por um importante membro de sua diretoria e, por consequência, sua entrada no Departamento de Geografia do IBGE como estagiário:

O mecanismo de ingresso foi o seguinte: em l958, 59, 60, a Geografia no Rio de Janeiro era muito limitada, a minha turma de 58, nós éramos sete alunos, a turma seguinte, da sua orientadora Lia Osório, eram quatro alunos só, o número de geógrafos estagiários do IBGE era mínimo, eu consegui através do Antônio Teixeira Guerra me fazer conhecer, eu entrei para AGB em 58…” (CORRÊA, 1998)

Ao ser perguntado se apresentou trabalho:

Apresentei trabalho coisa nenhuma, eu ia a todas as conferências que a AGB organizava aqui no Rio e acabei sendo conhecido e, quando solicitei para ser estagiário no IBGE, havia possibilidade. Você chegava com a secretária da Divisão de Geografia e dizia: ‘meu nome é fulano de tal, eu quero ser estagiário porque estudo Geografia, estou começando o segundo ano…’, ela anotava e dizia: ‘olha, quando tiver uma vaga a gente chama’, ‘está bem…’. Um belo dia ligaram para minha casa: ‘olha, tem uma vaga, você está sendo chamado a vir para cá…” (CORRÊA, 1998).

Portanto, o papel da AGB na democratização do conhecimento geográfico no IBGE sempre foi fundamental para que não se ampliasse uma estrutura de “castas” entre os profissionais mais jovens.

A importância da AGB é, de fato, motivo de recordações de muitos geógrafos. Orlando Valverde escreveu sobre os primórdios da AGB carioca na publicação Terra Livre (VALVERDE, 1992) e fez comentários sobre os modelos de atividade da agremiação no número especial de entrevistas da Revista Geosul:

Em 1962, a Assembleia de Penedo, que foi talvez a mais proveitosa, no tempo em que Manuel Correia de Andrade era o presidente, eu fiz excursão ao baixo São Francisco, encarregado de estudar a parte agrária; Aziz Ab’ Saber fez a parte da Geomorfologia, e Caio Prado Jr. a parte econômica. O relator foi nada menos que o Carlos Augusto Figueiredo Monteiro, que fez um primor de exposição, com a presença do Bispo de Penedo…” (VALVERDE, 1991-1992)

Speridião Faissol, embora não tendo muitas ligações com a associação, também reconheceu sua importância e comentou sobre os períodos iniciais da AGB:

Na realidade, eu sempre que faço excursão com os meus alunos, e vamos pelo Vale do Paraíba, eu faço questão de passar em Lorena, Lorena foi onde foi criada a AGB nacional, em 1945, não sei quando, eu era muito jovem, porque tinha a Geografia de São Paulo e a Geografia do Rio de Janeiro, inimigos mortais, então não tinha muita relação um com outro. O grupo do Rio e de São Paulo ‘que loucura, o que nós estamos fazendo? Estamos atrapalhando uns aos outros’. Então resolveram fundar a AGB nacional com, senão me engano, 10 sócios efetivos de São Paulo e 10 sócios efetivos do Rio de Janeiro, nós outros éramos chamados sócios cooperadores, mas nem por isso deixamos de ter feito parte da Ata de Fundação da Associação dos Geógrafos Brasileiros, acho que isso é importante, porque ela ia ter, a partir daquele momento, um papel importante, quer dizer, os jovens geógrafos também faziam parte da AGB e participavam. Você sente que nesse período a ideia da AGB como pesquisa foi demais, a gente fez trabalho no Vale do Paraíba, fez trabalho por todo o lado, havia muito trabalho de campo feito pela AGB mesmo, levando alunos. Lembro-me que o José Veríssimo tinha umas turmas enormes, ele levava todo mundo pelo Vale do Paraíba mostrando as coisas etc., havia muito trabalho de campo feito pela AGB. Na realidade, acho que a AGB fez mais trabalho de campo do que a universidade naquele momento. Depois ela foi refluindo para um patamar mais ideológico e a universidade foi entrando para produzir mais, hoje a universidade é muito mais importante que o IBGE em produzir Geografia, isso a gente tem que reconhecer com toda a relação afetuosa e afetiva que a gente tem com o IBGE, tem que reconhecer que hoje o campo de pesquisa da Geografia é na universidade…” (FAISSOL, 1998)

Mas foi Roberto Lobato Corrêa que avaliou bem quem, efetivamente, foi agebeano militante ou apenas visitador esporádico das assembleias, além de mostrar sua lealdade à associação e lamentar sua destruição no Rio de Janeiro, no final dos anos 80. Sobre o relacionamento da Geografia do IBGE com a da AGB:

Olha a Geografia, a Geografia do Rio de Janeiro era fundamentalmente a Geografia do IBGE, primeiro que era o maior corpo de geógrafos pesquisadores existente… Hilgard Sternberg, Berta Becker e Maria do Carmo, principais professores e pesquisadores da UB nos anos 50 e 60, não eram agebeanos… a Maria do Carmo nunca foi agebeana, o Hilgard muito menos e a Geografia do Rio de Janeiro que era Geografia ligada à AGB era do IBGE… eu ouvia a Lísia Bernardes falar dos anos 50… da briga entre Rio e São Paulo que era briga entre discípulos de Haroldo de Azevedo, José Araújo Filho, Antônio Rocha Penteado… professores da USP e geógrafos do IBGE, Nilo, Lígia, Geiger, Orlando… menos, mas também participava, Faissol nunca foi agebeano, mas Nilo, Lígia, Elza, Alfredo, esses participavam sempre. Bom, a partir dos anos 60, quando eu fui a primeira vez à AGB em 62, de 62 a 96 eu só faltei a três AGBs…” (CORRÊA, 1998)

E justificou uma de suas ausências:

Uma eu estava em Chicago em 74, 92 eu não podia, Prudente, em 68 eu estava em Pato Branco em pesquisa de campo, todas as outras eu fui e participei intensamente e também não apenas eu, todos os nossos colegas participavam, eu acho que as relações foram boas entre IBGE e AGB. O IBGE era a AGB Rio… a ‘Geografia carioca’, isso foi mudando progressivamente a partir do começo dos anos 80 quando, infelizmente, no meu entender, na nova estrutura do DEGEO a AGB foi progressivamente ficando sem lugar…, e o Departamento de Geografia da UFRJ nunca quis assumir a AGB… ela ficou solta e foi apropriada por determinados grupos de esquerda, é verdade, mas não quer dizer que necessariamente, mas grupos que tiveram a intenção de destruir a AGB Rio de Janeiro, e literalmente, de fato e de direito destruíram-na…” (CORRÊA, 1998)

Essas palavras de lamento têm sua razão de ser, vindas de um agebeano do final dos anos 50, assim como o geógrafo José César de Magalhães Filho, que ingressou no IBGE em 1953, como estagiário, convidado por Jorge Zarur, também explicou sua entrada e intensa participação na associação entre os anos 50 e os 80:

Em 54, me ofereceram uma proposta para eu ser sócio cooperador da Regional do Rio de Janeiro e aí começou a minha vida na AGB… porque aí eu fui tesoureiro alguns anos, depois fui duas vezes chefe da Seção Regional do Rio de Janeiro e aí comecei a frequentar as assembleias que eram naquele tempo de quinze dias… A AGB do Rio era muito ligada ao IBGE, enquanto que a de São Paulo era muito ligada à USP, por isso ela sobrevivia. No Rio, quando acabou a influência dos geógrafos do IBGE na AGB, a AGB do Rio acabou, até que quando eu soube a última vez tinha um sócio pagante… e, modéstia à parte, eu sustentei essa AGB do Rio de Janeiro desde 62, quando eu fui eleito Diretor da Regional até 78 quando, quando eu fui eleito Presidente Nacional da Associação dos Geógrafos Brasileiros e realizei, por uma questão sentimental, o Congresso de Fortaleza, meu pai era cearense então eu disse… ‘bom, vou conhecer a terra do meu pai, Baturité’, e aí, em Belo Horizonte, na Assembleia da AGB de Belo Horizonte eu sucedi o Davi Márcio e fiquei de 76 a 78… fazendo praticamente duas coisas no IBGE, fazendo minhas pesquisas e cuidando da AGB… eu passei grande parte da minha vida cuidando, trabalhando, pensando, comendo, almoçando, jantando e dormindo AGB. O Congresso de Fortaleza que, modéstia à parte, acho que foi… se não foi em termos científicos, pelo menos a parte administrativa nunca houve um igual… Na AGB eu tenho que dividir em duas partes: a minha participação na Seção Regional do Rio de Janeiro e a minha parte, às vezes concomitante, com a AGB nacional, que eu fui tesoureiro, fui secretário, fui participante da Comissão do Boletim Geográfico da AGB, eu, como disse, fui duas vezes Diretor Regional, fiz uma série de cursos, orientei uma série de cursos convidando grande parte dos geógrafos do IBGE para dar as aulas, dei conferências em função da AGB na UFRJ, na Universidade Federal Fluminense, foi aí que comecei a participar no plano nacional. Em 60, comecei a participar da reunião de Mossoró, fui à de Mossoró em 60, Londrina, 62, eu não fui porque minha mãe foi acidentada, mas eu mandei a minha tese do Porto de Paranaguá que foi elogiada pelo Caio Prado Júnior. 1963 fui em Penedo, 1964 fui em Poços de Caldas… foi no período do ‘Golpe de Estado’ e não se podia dizer muita coisa e nós fomos orientados para falar pouco, em 65 veio o Congresso do Rio no qual eu trabalhei como Secretário, depois em 66 foi Franca, 67, não, 66 Blumenau, 67 Franca, 68 Montes Claros, 69 foi Vitória, que eu fui eleito Diretor do Anais e 70 já foi a revisão dos estatutos lá em São Paulo e depois passou de anual para a bienal e não tinha mais nome de Assembleia, passou a ser Encontros, nas quais eu, sempre que podia, apresentava um trabalho relacionado à energia, à indústria, às estruturas portuárias, depois, se não me engano, foi em Franca e muita participação no Conselho Diretor da Assembleia AGB nacional, mas a nossa organização era muito fechada, era quem elegia era o representante das universidades, o representante do IBGE…” (MAGALHÃES FILHO, 1998)

Essas relações estreitas entre o IBGE e a AGB, que foram altamente positivas nas fases iniciais dos dois órgãos e talvez um pouco burocráticas nos períodos intermediários dos anos 60 e ao chegarem à década de 70, começaram a refluir. Percebeu-se um movimento por parte do IBGE no sentido de diminuir essas relações. O próprio José César reconheceu o processo:

Eu fui até pintor de mesa da nossa salinha da AGB no DEGEO, o Faissol acabou com ela… nós tínhamos nossa estante, nosso arquivo… fomos parar rapidamente numa sala lá…. que depois ele pediu também… fomos parar em baixo da escada lá naquela Seção de Estudos que ainda era no 7° andar… que depois fizeram um puxadinho lá de madeira onde guardava-se os Boletins atrasados, para vender, e os atualizados lá… assim, acabou a Geografia no IBGE em questão de localização e aí começou o processo de destruição. Ela teve uma sede própria ali na Presidente Vargas, no período da Assembleia de Maceió, mas durou pouco tempo… as brigas políticas afastavam os sócios e a sede foi devolvida… ela foi para a UERJ… há uns dois anos, eu vim saber que o último Diretor aqui do Rio estava dizendo que não era mais possível continuar porque, inclusive, só tinha um sócio pagante… as pessoas realmente pensam assim… se não tem beneficio nenhum, não pagam e não participam… só recebo um Boletim e olhe lá… vou ficar pagando para que? Eu também não estou frequentando…” (MAGALHÃES FILHO, 1998)

Entretanto, apesar de ser possível reconhecer o papel desses mecanismos de troca de experiências, como as antigas Tertúlias Geográficas e, posteriormente, as Assembleias da AGB, os fatos indicam que foram os projetos de trabalho que combinavam trabalhos de campo com textos escritos (que podiam ser apenas relatórios internos ou mesmo artigos e capítulos de livros, que, em muitos casos, eram apresentados nas Tertúlias e nas reuniões da AGB) os verdadeiros ambientes de formação profissional para os geógrafos do IBGE desde suas fases iniciais.

No processo de coorientação da tese de mestrado de Vera Cortes Abrantes, que trabalhou com o arquivo fotográfico de trabalhos de campo do IBGE (ABRANTES, 2000), foi possível verificar a importância dessas excursões, de seus organizadores e de alguns participantes (que também deram depoimentos orais) na formação profissional dos geógrafos do IBGE e de professores universitários que, ocasionalmente, também trabalhavam em regime de convênios com o órgão.

As informações contidas nos arquivos organizados por Vera Abrantes serviram também para se entender a importância dos trabalhos de campo e confrontá-los com a documentação formal gerada pelo IBGE através de suas publicações e relatórios.

Por esses arquivos, foi possível perceber que a “Velha Guarda” foi duramente treinada no conhecimento do território brasileiro e que o seu saber geográfico foi moldado por essas pesquisas, configurando-se, ainda, como um processo de treinamento geralmente realizado no exterior, onde os pressupostos teóricos também eram ministrados por especialistas em suas respectivas áreas.

Entre 1941 e 1968, períodos cobertos pelo arquivo de fotos de trabalho de campo do IBGE, foram realizadas 170 excursões de campo nas áreas de Geografia, sendo 76 nos anos 40, 34 entre 1950 e 1955, 23 entre 1956 e 1959 e 37 entre 1960 e 1968. A maioria delas gerou artigos e livros escritos por seus participantes, principalmente na Revista Brasileira de Geografia e no Boletim Geográfico.

Grandes projetos como a localização do novo Distrito Federal no interior do país, a Carta do Brasil ao milionésimo, as determinações de fronteiras estaduais, os estudos sobre o relevo do território, os programas de colonização dirigida, o monitoramento do processo de ocupação humana do território, os estudos de acompanhamento da agricultura e pecuária, os projetos de dimensionamento das bacias hidrográficas, o entendimento dos grandes padrões espaciais da cobertura vegetal nativa, os estudos para subsidiar os diferentes modelos de regionalização e o acompanhamento da industrialização e da urbanização, além dos trabalhos de divulgação da Geografia, como o projeto da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, as coleções da Geografia do Brasil e os diversos Atlas que foram editados, foram alguns dos resultados desses trabalhos de campo, retratados nos documentos oficiais do IBGE e, em alguns casos, em documentação de outros órgãos federais e estaduais.

Os campeões desse monumental processo de reconhecimento do território brasileiro tornaram-se, evidentemente, os líderes dessa Geografia subsidiadora das ações governamentais no que tange ao gerenciamento do território brasileiro e foram os formadores das gerações de profissionais da casa até o início da década de 80.

AGRADECIMENTOS

O autor agradece a Mariana Scalon e a Rachel Scalon pelo trabalho de revisão do texto e organização de editoração do trabalho.

REFERÊNCIAS

ABRANTES, Vera Lucia Cortes. Fragmentos de memória das pesquisas geográficas de campo no IBGE (1939-1968): imagens e representações numa abordagem da história oral. Rio de Janeiro, 2000, 156 p. Dissertação (Mestrado em Memória Social e Documento) UNI-RIO.

ALMEIDA, Roberto Schmidt de. A Geografia e os Geógrafos do IBGE no Período 1939-1998. Rio de Janeiro, 2000. 712 p. Tese de Doutoramento em Ciências, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Geografia.

BACKHEUSER, Everardo. Tertúlias Geográficas. Boletim Geográfico [do] IBGE. Rio de Janeiro, 1943. v. 1, n. 2, p. 5-8.

CASTRO, Christóvão Leite de. A mudança da capital à luz da ciência geográfica. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, abr. / jun., 1947. v. 9, n. 2, p. 279-285.

CORRÊA, Roberto Lobato de Azevedo. Depoimento [jun. 1998].  Entrevistador: Roberto Schmidt de Almeida.

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