O Futuro da Memória Institucional do IBGE

A melhor maneira de se concluir uma pesquisa não é da-la por encerrada após uma avaliação acadêmica formal e sim mostrar os novos caminhos que se abriram e planejar as etapas seguintes.

O principal mérito de uma pesquisa como essa foi perceber que o IBGE como área de estudo é ainda um campo pouco explorado. E o que é surpreendente, é um campo vastíssimo, que possivelmente nem os próprios ibegeanos tenham uma pálida noção da imensidão desse campo, e da infinidade de possibilidades que estão abertas aos olhos de pesquisadores de vários segmentos do conhecimento.

Se historiadores das Ciências Sociais ou das Ciências Matemáticas tiverem curiosidade e audácia para pesquisar a evolução das pesquisas que o órgão coordenou ou executou em seus mais de 60 anos de existência terão um oceano de informações a serem organizadas. Se antropólogos ou sociólogos resolvessem trabalhar com a complexa estrutura familiar criada pelos diferentes processos de contratação de pessoal nesses mais de 60 anos, com certeza teriam no IBGE um painel interessante da sociedade brasileira, onde mesclaram-se processos que se estendem do mais puro nepotismo até a criação ou re-criação de famílias moldadas por condicionamentos do ambiente de trabalho ou da vida social que se estruturou em paralelo. Passando pelos concursos públicos, dos mais técnicos, aos que objetivaram a contratação de grandes contingentes de funcionários que seriam dispensados pelo final das campanhas censitárias. Enfim, um quadro que exemplificaria muito bem as colocações de Edson Nunes, em sua tese de doutoramento em Berkeley, sobre as práticas do clientelismo e do insulamento burocrático (Nunes, 1997).

Se estudiosos da administração pública se debruçarem sobre as grandes re-estruturações que a agência sofreu em sua existência, certamente teriam material para inúmeros case studys, que iriam enriquecer o painel da já complexa administração pública brasileira.

Neste sentido é importante que se continue o trabalho de desvendamento dessa organização singular que, por sua heterogeneidade de atuações e complexidade técnico-administrativa, situa-se na escala mundial, num pequeno grupo de agências governamentais consideradas como modelo na estrutura de planejamento de um país de grandes dimensões.

Nossa contribuição à continuidade desse processo de desvendamento do IBGE ao mundo acadêmico em geral e aos geógrafos das gerações futuras em particular, será apresentar as fases seguintes de continuação do projeto de história oral da agência, detalhando as etapas previstas entre 2000 e 2001 e apontando possibilidades de abertura de linhas de pesquisas para os períodos posteriores.

Para isso, foram feitas adaptações no texto que serviu de base para o planejamento do projeto de história oral do IBGE inserido no Plano Estratégico 2000-2003 do órgão.
Planejamento 2000 – 2001

Projeto História Oral do IBGE
Introdução

Objetivando dar continuidade aos esforços iniciais empreendidos pela equipe coordenada pela ex-servidora Icléia Thiesen Magalhães Costa no âmbito do Projeto Memória do IBGE, que objetivavam formar um acervo de depoimentos orais dos servidores do órgão, foram incorporadas a este acervo, nos anos de 1999 / 2000 mais 28 duplas de fitas (original e cópia) referentes a três (3) ex-presidentes, seis (6) ex-superintendentes, diretores e adjuntos das áreas vinculadas à Geografia, sete (7) ex-chefes de departamento e da antiga divisão de Geografia e 15 geógrafos que coordenaram projetos e chefiaram setores operacionais da área de Geografia.
Todos estes depoimentos já estão devidamente transcritos em Word 6.0/95, estando em fase de limpeza de texto e verificação de fidelidade.

Existe ainda o depoimento do geógrafo Milton Santos (devidamente transcrito), que embora não tenha pertencido aos quadros do IBGE, participou com muita freqüência dos cursos de aperfeiçoamento realizados pelo IBGE nos anos 50.

Foram redigitadas em Word 6.0/95 os quatro (4) depoimentos que já haviam sido gravados no início dos anos 90, no contexto da fase inicial do Projeto História Oral do IBGE: Aluízio Capdeville Duarte (falecido em 1995), Cristóvão Leite de Castro, Gelson Rangel Lima e Orlando Valverde.

Previsão para 2000 – 2001

Para o período compreendido entre 2000 e 2001 estão previstos os depoimentos de:
– Ney Alves Ferreira, atual coordenador do Arboreto do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, ex-superintendente da SUPREN.
– Eduardo Augusto de Almeida Guimarães, atual presidente do Banespa e ex-diretor de Economia e ex-presidente do IBGE entre 1985 e 1992.
– Gilberto Scheid ex-chefe do Serviço Gráfico (SERGRAF), atualmente consultor da área editorial do IBGE.

Gravação em Vídeo Digital e Som

Para o ano 2000/ 2001 na área de Memória Institucional, no que concerne ao Projeto História Oral do IBGE será possível a ampliação do acervo sob dois aspectos.

Uso do vídeo digital acoplado a gravação sonora dos novos depoimentos

No contexto de ampliação do escopo do Projeto de História Oral do IBGE foi efetivada a participação de dois técnicos do CDDI no V Encontro Nacional de História Oral em novembro de 1999 na cidade de Belo Horizonte, onde foi muito discutida a introdução e adaptação de novas midias no processo de captação de depoimentos orais. A questão da gravação em vídeo está tornando-se cada vez mais acessível, em virtude do barateamento das novas câmeras, apesar da incorporação de novas tecnologias digitais e de abolição de fontes de luz de alta potência, além da constante miniaturização dos equipamentos.

Tais inovações estão facilitando o uso de câmeras de vídeo, junto aos gravadores de som de fita cassete, ainda os garantidores de um suporte plenamente utilizado pelos profissionais de transcrição de fitas. Portanto, atualmente já está sendo possível dispor de dois tipos de gravação de um depoimento, um de som tradicional, em fita cassete (que é utilizado para a transcrição) e um outro de vídeo e som digital, que garante um testemunho fiel das expressões faciais do depoente e que confere uma maior fidedignidade ao depoimento.

Levando em consideração que o uso da gravação em vídeo neste contexto, ainda é recente, pois os vídeos tradicionais, geralmente feitos em equipamentos profissionais, exigem espaço especial e um forte suporte de iluminação que, além de caro, costuma gerar um estresse no depoente, tornando-o geralmente dispersivo ou irritado, implicando quase sempre na interrupção do depoimento. Deve-se, portanto iniciar no biênio 2000/2001 os trabalhos de captação de novos depoimentos utilizando equipamento de vídeo digital, juntamente com os tradicionais gravadores de som.

Regravação parcial em vídeo digital de alguns dos antigos depoimentos
Seria importante também, aproveitando o acervo de depoimentos já existente, voltar a alguns dos depoentes e gravar em vídeo algumas partes mais interessantes de seu antigo depoimento, principalmente aquelas fortemente vinculadas com as transformações que o IBGE sofreu ao longo dos anos (alterações administrativas e tecnológicas, grandes projetos, etc…).
Considerando-se que já existe a transcrição desse material, não seria difícil a implementação desse processo de regravação.

Organização do Acervo de Transcrições

Para que se possa em futuro próximo disponibilizar para a pesquisa histórica os acervos de gravações e de transcrições desses profissionais, será prioritário para o biênio 2000/2001, o início da organização de um arquivo desse material contendo fichas de entrevistas, termos de compromisso, termos de cessão (com e sem restrições), além de pequenos verbetes que esclareçam a área de atuação de cada depoente e sua importância específica na organização das pesquisas do IBGE.

Construção do Banco de Dados Biográficos

Como material complementar ao acervo de depoimentos, será possível também iniciar no ano 2000 a organização de um banco de dados biográficos dos técnicos que coordenaram pesquisas e produziram material relevante para o IBGE.
A vinculação entre o curriculum vitae do profissional, informações de sua ficha funcional e os dados disponíveis no acervo bibliográfico da Biblioteca do IBGE, gerarão um conjunto de informações que poderão fazer parte de um futuro dicionário biográfico dos técnicos do IBGE, nos moldes do Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro editado pelo Cpdoc da Fundação Getúlio Vargas, guardadas as devidas proporções entre os dois projetos.

Pesquisa de fichas funcionais e currículos (Arquivo do Roncador)

Por ocasião da visita técnica feita entre 29/11 e 03/12 de 1999 ao arquivo histórico do IBGE na Reserva Ecológica do Roncador no Distrito Federal, foi analisada a possibilidade de iniciar um processo de sistematização das informações funcionais dos antigos funcionários do CNE e CNG, pesquisando os documentos concernentes a estas áreas, que estão arquivados em caixas sem especificações detalhadas. Seria possível treinar um funcionário do arquivo histórico para, em tempo parcial, pesquisar informações funcionais, copiar currículos ou separar listagens de pessoal (para promoção, pagamento etc…) que possam ampliar o acervo de dados anteriores a Fundação IBGE.

Pesquisa de fichas funcionais e currículos (Arquivo da Av. Franlkin Roosevelt)

No âmbito da sede ( Av. Franklin Roosevelt 194 2o ) também existe um arquivo de servidores aposentados ( material que no caso da DGC, foi transferido de Parada de Lucas). Não se tem certeza se todas as diretorias fizeram o mesmo, ou se foi uma medida específica da DGC. Em todo o caso, será também necessário fazer pesquisas sistemáticas nesse arquivo.
Áreas do IBGE a serem priorizadas para coleta de depoimentos orais

Em virtude da maioria dos depoimentos estarem centrados na DGC será necessário iniciar paralelamente alguns depoimentos de referência nas outras diretorias e na Rede de Coleta.

Diretoria de Pesquisas e Estudos (DPE) – Duas prioridades deverão servir de base para o início da coleta de depoimentos e da pesquisa de fichas funcionais e de currículos. Ex-diretores, coordenadores de pesquisas (Pnad, Pof, Endef, Indices de preços etc…)

Diretoria de Informática (DI) – Ex-diretores , coordenadores da área de Bancos de Dados, responsáveis pela compra de equipamentos de informática e os atuais gerentes de redes.
Centro de Documentação e Disseminação de Informações (CDDI) – Ex-coordenadores, ex-chefes de biblioteca, ex-chefes de atendimento, coordenadores de novas mídias. Diretoria de Planejamento e Controle (DPC) – Ex-diretores, ex-delegados e chefes de Deres e Dipecs. Paralelamente, efetuar treinamento para coleta de depoimentos nas SDDIs. Antigos chefes de agências, coordenadores de equipes de pesquisas especiais deverão ter seus depoimentos colhidos, preferencialmente por servidores locais treinados nos procedimentos de coleta de depoimento oral.

Diretoria de Geociências (DGC) – as áreas ainda não cobertas pela pesquisa, Geodésia / Cartografia e grupos de pesquisa dos Digeos. Apenas os ex-diretores de Cartografia Miguel Alves de Lima e Mauro Pereira de Melo já fizeram seus depoimentos, mas levando-se em conta que o enfoque da pesquisa feita não enfatizava suas ações prioritárias nas áreas de Geodésia e Cartografia, será necessário realizar novos depoimentos principalmente com Mauro Melo e ex-chefes do Decar. Assim como colher depoimentos dos antigos funcionários da área de Geodésia que realizaram campanhas de levantamento topográfico.

Presidência (PR) – Apesar de haver sido coletado os depoimentos de alguns ex-presidentes, o enfoque ficou restrito a visão parcial do titular do cargo aos trabalhos da área de Geografia em particular e um pouco ao gerenciamento da DGC no quadro do IBGE.

Portanto, para que tenhamos uma boa visão dos diferentes enfoques que cada ex-presidente imprimiu na casa, será necessário uma nova rodada de depoimentos, se possível em vídeo / som e também uma possível mesa redonda com os ex-presidentes, para que se tenha uma visão mais abrangente possível da atuação do órgão, principalmente no que concerne às novas pesquisas que ampliaram a imagem do IBGE na sociedade brasileira.

Material e Recursos Humanos Necessários

Considerando as atuais restrições orçamentárias por que passa o IBGE, um projeto de História Oral do órgão pode ser desenvolvido em módulos priorizáveis, evitando-se grandes dispêndios. Seriam discutidas as prioridades de áreas, levando-se em consideração a importância para a história do IBGE ( áreas antigas e que apresentaram grandes mudanças ao longo do tempo poderia ser uma das considerações para uma hierarquia de prioridades). A questão idade dos possíveis depoentes também deve ser considerada, priorizando os aposentados mais idosos.

Material de gravação

Em termos de equipamento, possivelmente o item mais caro foi a filmadora digital Sony, que apresenta a possibilidade de migrar diretamente para computadores que possuam placas de captura de vídeo, o material gravado dos depoimentos.
A gerência da Divisão de Bibliotecas e Acervos Especiais, onde está alocado o Projeto de História Oral do IBGE dispõe de dois computadores Apple Power Mac G4 que dispõem de placas de vídeo. Nesses computadores estão sendo realizados os testes de migração de imagens gravadas e o treinamento dos profissionais responsáveis pelas gravações dos próximos depoimentos*.

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* É importante ter em mente que o uso de filmadora digital para gravação de depoimentos orais, ainda é uma prática não corriqueira, sendo necessário um período de treinamento e adaptação para que se tenha plena certeza das vantagens da técnica. Por isso é necessário a realização de testes iniciais com o equipamento para que se tenha habilidade necessária no manuseio do equipamento. Será também necessário verificar a compatibilidade das fitas VHS, já existentes no acervo do IBGE, aos equipamentos de reprodução das novas fitas digitais e avaliar o custo de compatibilidade (se houver).

O uso do dos gravadores de fita cassete continuará a ser considerado prioritário, pois é com eles que o processo de transcrição de fitas se realiza. O CDDI ainda dispõe de alguns gravadores e possivelmente, não será necessário novos gastos em equipamentos de gravação de som. Somente fitas do tipo cassete AS (super avilin) deverão ser adquiridas na medida do desenvolvimento do projeto ( o custo de uma fita AS 90 de uma boa marca está em torno de R$5,00). Material de Transcrição de Fitas

Dois equipamentos são fundamentais no processo de transcrição de fitas gravadas, um gravador dotado de botão ou pedal para facilitar o progresso e paralisação da fita e um computador simples dotado de um editor de texto considerado padrão (o Word 6.0/95 é o mais comum). Com eles o texto é transformado em arquivo .doc e armazenado em disquetes ou em HDs, sendo também possível sua transformação em arquivo HTML para uso na Internet.

Arquivos de disquetes são também necessários para a guarda e o arquivamento físico dos disquetes. No caso de grandes quantidades de arquivos .doc é importante considerar o uso de mídias de armazenamento de grande capacidade como CD-ROM , Zip Drive ou fitas DAT. Considerando que o CDDI possui áreas de informática que dispõem dessa tecnologia, não será necessário adquirimos tais equipamentos e sim as mídias correspondentes (disquetes, CD-ROMs ou fitas).

Recursos Humanos Necessários

Para a consecução do Projeto de História Oral do IBGE seria necessário uma equipe composta de três responsáveis e um assistente encarregados da organização das listas de depoentes, dos roteiros de depoimentos junto às áreas técnicas do IBGE, da condução dos preparativos para as gravações e das gravações propriamente. Além disso, são também responsáveis pelo controle de qualidade das transcrições, acompanhando o processo de verificação de fidedignidade e da copidescagem dos textos. Gerenciam também o controle de qualidade dos arquivos de fitas e de midia magnética (disquetes, CD-ROM) e de papel, se houver. São também responsáveis pelo treinamento de técnicos de outras áreas do IBGE, nos procedimentos de coleta de depoimentos orais e na pesquisa de documentos históricos do órgão em suas áreas de atuação.

Um técnico com experiência em arquivo e com prática de transcrição de fitas de som encarregado das transcrições e do arquivamento desses documentos, além de também poder auxiliar na organização e/ou manutenção dos arquivos da área de Memória Institucional do IBGE.

Um pesquisador com habilitação em História, para organizar a documentação histórica da casa utilizando uma linha de tempo que contemplasse todas as gestões de presidentes e de diretores e superintendentes das principais áreas de atuação do IBGE. Pesquisa esta, que iria dar continuidade ao projeto de Cronologia, que lista os principais instrumentos jurídico-administrativos que regeram o órgão desde sua fundação. Seria também responsável pela pesquisa documental das principais biografias dos técnicos da casa, estruturando um patamar mínimo de informações funcionais que servisse de base para o Banco de Dados Biográficos do IBGE. Independentemente da realização total desse planejamento, ficam aqui marcadas as principais realizações de um grupo de profissionais da Geografia, que muito contribuiu para a ampliação da eficiência do planejamento governamental brasileiro e para a difusão do conhecimento geográfico na sociedade, nos 60 anos de atividades da maior agência de informações territoriais do Brasil.

Esperemos que essas realizações nunca morram.