ESTRUTURA ESPACIAL DOS BAIRROS PORTUÁRIOS DO RIO DE JANEIRO 
(Saúde, Gamboa e Santo Cristo)
Roberto Schmidt de Almeida
Introdução
Estabelecer os principais padrões que orientam a estrutura espacial dos bairros que fazem parte da área portuária da cidade do Rio de Janeiro, é o principal objetivo deste trabalho. Neste sentido, serão estabelecidas duas relações espaciais que presidem essa contextualização. A primeira, de caráter físico, opera com elementos da Geomorfologia, evidenciando os morros de São Bento, Conceição-Valongo, Providência-Livramento, Saúde e Pinto e a linha de costa (o litoral antigo com os mangues e o litoral atual, composto pelo aterro do novo porto com o canal do Mangue retificado). Á segunda, de caráter humano/econômico, opera com elementos da Geografia Urbana e da Geografia dos Transportes.
No contexto da Geografia Urbana, o enfoque é orientado para o entendimento dos padrões de arruamento e ocupação das edificações residenciais e comerciais/industriais, tanto nas encostas dos morros, quanto nas áreas baixas. Partindo-se daí para algumas inferências na verificação da composição socioeconómica e cultural da população que ali reside ou trabalha
No contexto da Geografia dos Transportes, o enfoque é orientado para dar conta do caráter portuário desses bairros e de suas relações com os sistemas: ferroviário presidido pelos terminais: Estação D. Pedro II, na vertente sul do Morro da Providência-Livramento, Estação Barão de Mauá, na direção sudoeste do Morro do Pinto, após o canal do Mangue e os pátios de manobras e transferência de cargas da Gamboa e de Santo Cristo localizados na área portuária e rodoviário, representado pelos terminais Mariano Procópio na Praça Mauá, Rodoviária Novo Rio no Santo Cristo e terminal suburbano Coronel Fontenele, na rua Bento Ribeiro, na parte posterior da estação D. Pedro II.
As relações funcionais entre esses elementos físicos e humanos, constituem o pré-requisito básico para compor o pano de fundo norteador dessa análise de Geografia Urbana, que inicia estabelecendo os principais subespaços desses bairros.
Os subespaços
A noção de subespaço neste trabalho agrega componentes físicos e humanos que imprimem uma certa homogeneidade a uma porção restrita do território pesquisado. Essa homogeneidade é claro, dependerá da ocorrência das diversas combinações de fatores que o pesquisador define, segundo seu ponto de vista. Neste sentido, cabem aqui as habituais restrições ao uso dessa noção, face ao caráter inescapavelmente arbitrário deste processo definidor. Por outro lado, é a partir de uma tipologia inicial, que se iniciam outros trabalhos, visando corroborar ou corrigir a pesquisa inicial.
É possível perceber os vários subespaços que compõem os bairros da chamada zona portuária do Rio de Janeiro. O Morro da Conceição apresenta alguns deles, a área da Ladeira do João Homem, rua Major Daemon com a vertente da Ladeira do Jogo da Bola até o adro da Igreja de São Francisco da Prainha, a vertente da rua Camerino e trecho final da Senador Pompeu. O próximo conjunto de subespaços situa-se no conjunto rochoso que incorpora os morros do Livramento e Providência. O mais antigo constitui-se na vertente norte (lado do porto) do Morro do Livramento-Providência (Ladeiras do Livramento e do Barroso). Seguem-se, a vertente sul do mesmo morro, subdividida na área que faz fronteira com o espaço da Estação D. Pedro II (Ladeira do Faria e rua Costa Ferreira), e a faixa que engloba os quarteirões entre as ruas Barão de São Félix e Senador Pompeu até a confluência com a rua Camerino; a parte mais alta do Morro da Providência (a escadaria onde inicia a favela de mesmo nome); a área de contato entre os morros da Conceição e Livramento-Providência e a antiga linha de costa que foi utilizada como espaço de atividades ligadas ao porto do Valongo e Prainha, correspondendo à faixa que corre paralela às ruas Sacadura Cabral e Livramento; ainda na Gamboa, a área que corresponde ao Cemitério dos Ingleses (rua Barão da Gamboa), mais a região da Praça da Harmonia (área de grandes moinhos de farinha localizados próximo às docas, situadas ao longo da Av. Rodrigues Alves).
Os subespaços do bairro de Santo Cristo estão divididos na vertente sul do Morro do Pinto, que corre paralela à via férrea (rua Mariano Procópio e Ladeira do Pinto); a vertente oeste do mesmo morro, ao longo da Rua Pedro Alves; a parte baixa do bairro junto à Praça do Santo Cristo; o corredor da Linha Lilás, que separa os morros do Pinto e Providência, onde se situa o conjunto habitacional dos portuários e a parte alta onde está localizada a paróquia de Nossa Senhora de Monte Serrat.
Portanto, estaremos trabalhando num amplo e multifacetado espaço, onde se misturam diversas atividades econômicas e culturais, diversos grupos étnicos e diferentes classes sociais, refletidos na grande variedade de estilos de moradia encontradas nesses subespaços. São áreas que exibem trajetórias históricas diferenciadas, pois foram se desenvolvendo desde o século XVII até o XX, cada uma apresentando características próprias.
Para efeito de comparação foram anexados dois mapas. O primeiro, de 1858, é o Guia e Plano da Cidade do Rio de Janeiro publicado por Mc. Kinney & Leeder, que na parte superior mostra como era o litoral nordeste e norte da cidade. O segundo, datado de 1999, foi digitalizado com base em plantas urbanas e destaca especificamente a área portuária do Rio de Janeiro.
Uma Visão Histórico-Geográfica ao Longo da Zona Portuária
O objetivo desta seção é dar uma noção mais ampla da área portuária do Rio de Janeiro, analisando os contextos espacial e temporal que englobam o litoral, área baixa, sopé, meia encosta e cume dos morros que a compõem.
Para o entendimento de sua evolução histórica é fundamental a leitura do livro de Sergio Lamarão (1991), Dos Trapiches ao Porto: um estudo sobre a área portuária do Rio de Janeiro, com o devido acompanhamento cartográfico desenvolvido por Canabrava Barreiros (1965), no Atlas da Evolução Urbana do Rio de Janeiro, realizado para as comemorações do quarto centenário da cidade.
Um outro tipo de consulta pode também ser feito através de uma nova mídia, como o CD-ROM Circuito Mauá: Saúde, Gamboa e Santo Cristo – um passeio pelos bairros portuários do Rio de Janeiro (1998) realizado pela editora Viamonte sob a direção de Eliane Costa e contando com a autoria de pesquisadores como Sérgio Lamarão (história), Nina Rabha (urbanismo), Lia Calabre (história do carnaval e da Rádio Nacional), Carlos Addor (movimentos sociais) e Roberto Moura (a presença negra). O CD-ROM apresenta mais de 400 fotos, 18 clipes de vídeo, 400 laudas de texto, seis vinhetas de apresentação de programas de rádio, uma seqüência de mapas extremamente bem elaborados, além de entrevistas curtas com moradores e artistas do lugar, sempre acompanhados por uma ótima trilha sonora.Nos anos 50, o historiador Brasil Gerson organizou sua principal obra A História das Ruas do Rio de Janeiro, publicadas em suas primeiras três edições, pela editora Souza e pela Biblioteca Municipal, e cuja 4a edição de 1965, foi escolhida pela editora Brasiliana para fazer parte da Coleção Vieira Fazenda, por ocasião das festividades do 4n Centenário da Cidade. Em 1955, Vivaldo Coaracy igualmente edita as Memórias da Cidade do Rio de Janeiro, pela José Olímpio Editora, cuja 2a edição, foi também escolhida para ser publicada durante o 4o Centenário, embora atualmente só exista no mercado a 3a edição, impressa pela Editora Itatiaia, em convênio com aUniversidade de São Paulo. São obras imprescindíveis para consultas.
Para se ter uma imagem do Rio de Janeiro no período da chegada de D. João VI, convém também uma leitura da obra de Luiz Gonçalves dos Santos (Padre Perereca), organizada nos primeiros anos do século XIX e publicada em Lisboa em 1825, Memórias Para Servir à História do Reino do Brasil. Sem sombra de dúvida. Padre Perereca foi o primeiro geógrafo urbano do Brasil ao descrever, todo o perímetro urbano da cidade, praticamente rua a rua, enfatizando as construções institucionais e algumas privadas, consideradas como importantes. Essa obra, em 1943, foi reimpressa no Rio de Janeiro, pela editora Zélio Valverde, acrescida de um importantíssimo prefácio com notas de atualização das informações, de autoria de Noronha Santos, outro importante pesquisador da evolução urbana pretérita da cidade do Rio de Janeiro.
Para uma visão mais antropológica de uma parte importante desses bairros, aconselha-se a leitura das obras de Sônia Zylberberg (1992 e 1996), que enfocam a evolução histórica dos Morros da Conceição e Providência.
O livro de Sidney Chalhoub (1996) é também um importante referencial histórico, no que concerne aos aspectos das políticas públicas no início do século XX (no caso, a política de saúde imbricada com as de mudança de funções urbanas e de transporte).
No início do século XXI, foi editada pela Zahar uma das mais completas obras sobre a cidade do Rio de Janeiro no século XVIII. O Rio de Janeiro Setecentista: a vida e a construção da cidade da invasão francesa até a chegada da corte de Nireu Cavalcanti (2004). O livro divide- se em três partes; a primeira, sobre as muralhas que separavam os cariocas: a mesológica (geográfica), a do medo (dos indígenas, dos escravos, das doenças, e dos inimigos externos), a jesuítica (relativa à propriedades das terras), a colonial (relativa ao impedimento da industrialização) e a das barreiras sociais (hierarquização dos súditos); a segunda, sobre os seus profissionais e a terceira sobre seus arquitetos e construtores.
A função de uma visão geográfica ao longo da área portuária visa justamente engendrar uma tipologia, que explique as diferenças de uso do solo urbano e para isso, será importante dividi-la em duas grandes porções, norte e sul usando como divisor a linha de cumeada dos morros da Conceição, Livramento/Providência e Pinto e trabalhar os subespaços existentes nas cinco unidades espaciais de cada porção (norte/sul): área baixa, sopé, meia encosta e cume.
A Porção Norte: o litoral atual e antigo, os morros e suas encostas.
As modificações levadas a efeito pelo projeto de aterramento de uma vasta área para garantir o estabelecimento das novas atividades portuárias do Rio de Janeiro, no início do século XX, criaram espaços institucionais novos que acolheram, além dos depósitos de grande capacidade de estocagem e de transbordo, típicos de uma região portuária, muitos prédios destinados ao gerenciamento e fiscalização dessas atividades. Portanto, a faixa que vai do novo litoral até a antiga linha de costa, que se localizava nas imediações do sopé dos morros da Conceição, Livramento-Providência e Pinto é totalmente institucional, não existindo espaço residencial oficializado.
A primeira exceção a esta regra, ainda está por se concretizar, talvez no início do século XXI, por conta de um projeto da Prefeitura, de reurbanizar em termos residenciais, uma antiga área de pátio de manobras e depósitos do porto, situada na confluência das ruas Rivadávia Corrêa, Barão da Gamboa e Avenida Rodrigues Alves.
A estreita e sinuosa faixa que contornava, até o final do século XIX, o sopé dos morros e que configurava a antiga área portuária do Rio de Janeiro colonial e do reinado, caracterizado pelos trapiches e depósitos de escravos, ainda hoje pode ser percebida pelo contraste arquitetônico entre a área institucional moderna e os antigos prédios que ajudaram a cristalizar no espaço geográfico, uma antiga função não mais existente. Esta faixa não é homogênea, pois atravessa vários espaços que tiveram evoluções funcionais diversas ao longo dos períodos de ocupação da orla.
Inicia-se no antigo Largo da Prainha, na altura da Rua Sacadura Cabral, no sopé do Morro da Conceição, atravessa a confluência entre Rua Camerino, antigo caminho do Valongo, com a atual Avenida Barão de Tefé, segue pela Rua do Livramento, no sopé do morro de mesmo nome até a confluência com a Avenida Rivadávia Corrêa, onde desemboca o túnel João Ricardo, que liga a área da estação ferroviária da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil (posteriormente transformada em Companhia Brasileira de Trens Urbanos – CBTU, depois estadualizada como Flumitrens e atualmente privatizada sob a denominação de Supervia) à área do porto.A faixa continua pela rua Barão da Gamboa, no sopé do morro da Providência (antigo morro de Paulo Caieiro) até se ligar ao antigo caminho de Santa Teresa, hoje rua da América, eixo da atual linha lilás, que faz a ligação entre Botafogo/Laranjeiras com a área portuária passando pelo Catumbi e antiga Praça Onze por um sistema de vias elevadas de concreto, que ladeia a estrutura do Sambódromo. Na vertente rochosa do Morro da Providência está localizado o antigo conjunto habitacional dos estivadores construído no período do governo Vargas e que atualmente está sendo reformado.
No largo do Santo Cristo, onde termina a Rua da América. A faixa segue pela rua Santo Cristo e contorna o morro do Pinto (antigo morro de Santa Teresa) pela rua Pedro Alves e termina na confluência com a avenida Francisco Bicalho. Esta área está sofrendo um forte processo de deterioração em virtude do avanço da favela Moreira Pinto.
Prainha – Morro da Conceição
É possível perceber que, desde o século XVIII, o trecho da Prainha, no sopé do morro da Conceição, era a área mais rica e valorizada, pois se situava no ponto mais importante da antiga região portuária, onde se somava um bom ancoradouro, priorizado para o desembarque de cargas nobres, geralmente importadas da Europa, e a importante rua da Prainha, atual rua do Acre, artéria de ligação entre o porto e a região comercial mais importante da cidade situada no entorno da atual Praça XV.
Após a criação do aterro do novo porto, no início do século XX, o espaço da atual Praça Mauá sofreu fortes modificações a partir de duas atividades, uma antiga, que se manteve e se ampliou (o transporte), e outra nova (os negócios e o lazer).A ampliação da antiga atividade de terminal de transportes, com a criação em 1928, da estação de passageiros de navios, operada pela Companhia do Porto do Rio de Janeiro, (atualmente pelo Touring Club do Brasil) e do terminal rodoviário Mariano Procópio e pela introdução, em setembro de 1929, de um novo componente arquitetônico, que passou a vincular área de trabalho (escritórios) com lazer e informação, com a construção do monumental edifício sede do jornal A Noite, que também abrigaria em 1936, os estúdios da Rádio Nacional, A obra de Paulo Bastos Cezar e Ana Rosa Viveiros de Castro A Praça Mauá na Memória do Rio de Janeiro (1989) retrata muito bem esse desenvolvimento.
Além disso, a proliferação de bares e casas de danças, que acolhiam os profissionais da marinha mercante em trânsito, também deixou gravada na área uma aura de boêmia, de prostituição e contrabando.
Nos dois eixos viários que se originavam da praça e que contornam parte do morro da Conceição: a rua Sacadura Cabral e a rua do Acre a atividade de comércio atacadista, derivada da função portuária, agora muito ampliada, continuou a se desenvolver.
A rua do Acre, durante a primeira metade do século XX, torna-se o principal espaço dos atacadistas de gêneros alimentícios do Rio de Janeiro, ampliando suas antigas funções. Atividade, que nos anos 70, foi transferida para uma área da Avenida Brasil, na altura do bairro da Penha, no novo Mercado São Sebastião.
Na rua Sacadura Cabral, no sopé do morro, onde em meados do século XIX, foi parcialmente cortada a famosa Pedra do Sal, para permitir o trânsito na antiga orla até o Valongo, permaneceram alguns prédios característicos desta época, com lojas comerciais na parte térrea e com um sobrado habitado, geralmente pela família do comerciante.
Valongo – Morro do Livramento – Antigo Morro da Saúde
O antigo saco do Valongo, que se estendia da rua do Valongo (atual Camerino) até o morro da Saúde, era a região do comércio de escravos. O morro da Saúde foi um antigo Tômbolo ligado ao continente por trechos de manguezais que foi ao longo dos séculos XVII e XVIII se consolidando como terra firme e sendo paulatinamente ocupado através de aterros para abrigar os inúmeros depósitos de escravos que proliferaram neste trecho.
Sobre a escravidão no Rio de Janeiro, três obras são bons referenciais, Homens de Grossa Aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro 1790-1830, de João Luis Fragoso (1998), A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro, de Mary C. Karrasch (2000) e Em Costas Negras, de Manolo Florentino (1997). Florentino credita à área do Valongo, entre meados do século XVII e o XIX, a absorção de um contingente de aproximadamente 850.000 escravos (pp:37-38).
Certa ou errada esta contabilidade (pp:44-50), é perfeitamente crível que o volume do fluxo foi intenso, e que devido as terríveis condições da viagem através do Atlântico, uma boa parte dos escravos chegava doente ou seriamente debilitada, tendo de ser devidamente tratada para recuperar suas forças, antes de serem comercializados. Essa estrutura de transferência era garantida por uma casta de traficantes e seus funcionários, geralmente negros libertos, que detinham e gerenciavam depósitos, cozinhas, enfermarias e que com a ajuda da igreja e do governo local, garantiram a construção do cemitério dos Pretos Novos, para os que não conseguiam vencer essa dura etapa.
O local do antigo cemitério é atualmente é cortado pela rua Pedro Ernesto, que liga o trecho final da rua Sacadura Cabral à rua Rivadávia
Corrêa. A maior parte do antigo morro da Saúde foi arrasada no processo de aterro do novo porto, restando hoje, apenas uma pequena elevação com a Igreja de Nossa Senhora da Saúde, construída em 1722.
Com o aterro da área do novo porto, foram abertos novos logradouros, como por exemplo, a rua Barão de Tefé onde, em meados dos anos 40, foi construído o Hospital dos Servidores do Estado.
Saco e Morro da Gamboa
Após o morro da Saúde, o antigo litoral formava outro saco encaixado entre os morros da Saúde e da Gamboa. Na encosta do morro da Providência (antigo Paulo Caieiro), na parte elevada do litoral do saco da Gamboa foi construído em 1809, o cemitério dos Ingleses, para viajantes de religião protestante, que tivessem morrido próximos do litoral carioca. Com o tempo, membros da colônia inglesa radicada no Rio de Janeiro, também passaram a utilizá-lo e ainda hoje o seu funcionamento é regular, apesar de estar no sopé da favela da Providência, que é considerada um importante ponto de distribuição atacadista de drogas e por isso mesmo, muito suscetível aos conflitos armados.
Na parte elevada do morro da Gamboa foram construídos no final do século XIX, a igreja de Santo Cristo dos Milagres e o Hospital de Nossa Senhora da Saúde. Com o processo de aterro do novo porto no início do século XX, a área ficou isolada, mas os prédios foram tombados pelo Patrimônio Histórico.
Outra atividade importante desta área no século XIX foi a criação do terminal marítimo da Estrada de Ferro que, através de um túnel sob o morro da Providência fez a ligação ferroviária com a área portuária, para a transferência do café produzido no Vale do Rio Paraíba do Sul. É nesta área do antigo terminal, que a prefeitura projeta uma reurbanização para uso residencial. Na atualidade (início do século XXI), é sem dúvida alguma, a área mais vazia da região portuária, principalmente em função do abandono dessa vasta área de pátio de manobras e da esterilização da função de depósitos que durante boa parte do século XX, foi a principal atividade deste trecho.
Saco do Alferes – Santo Cristo – Morro do Pinto (antigo morro de Santa Teresa)
Após o morro da Gamboa, o próximo acidente geográfico litorâneo era o Saco do Alferes, em cuja praia ergueu-se a Igreja de Santo Cristo. Com o aterro, o antigo Largo do Gambá transformou-se em Largo do Santo Cristo com sua Igreja, ainda hoje servindo de ponto de atração dos moradores do bairro de Santo Cristo.
No sopé da vertente norte do morro do Pinto (antigo morro de Santa Teresa), corre a rua Santo Cristo apresentando ainda um casario que guarda semelhanças com o da Sacadura Cabral e com o da rua do Livramento. José Wasth Rodrigues (1945), em sua obra Documentário Arquitetônico (estampa 103: antigas casas urbanas: Rio de Janeiro) nos mostra alguns exemplos do que chamou de …casas modestas e vulgares do Rio de Janeiro: casa de loja, com sobradinho recuado do alinhamento; casa térrea, com pequena água furtada no telhado… pois na maioria dos casos restaram as casas de lojas com seus sobrados.
Este mesmo padrão pode ser visto, com maiores detalhes, na porção sul dessa região, que faz limite com a parte central da cidade do Rio de Janeiro, ao longo da Rua do Acre, Barão de São Félix e Senador Pompeu, Rua Rego Barros e Rua Nabuco de Freitas, que fazem os limites dos sopés desses quatro morros históricos da cidade do Rio de Janeiro.
A Porção Sul: o sopé e a meia encosta
A face sul desse conjunto de morros faz limite com a parte central da cidade. No caso do Morro da Conceição, o final da Rua do Acre, na junção com a Av. Marechal Floriano e a estreita rua Leandro Martins, além de um pequeno trecho da Senador Pompeu que corre ao pé do Morro até a Camerino. No caso do conjunto Livramento/Providência, o grupo de ruas que correm paralelas, Barão de São Félix, que se inicia na Praça dos Estivadores, na Camerino (onde se localizava o antigo mercado de escravos) e Senador Pompeu, que vindo do sopé sul do Morro da Conceição e cortando a Camerino, vão desembocar na praça da estação ferroviária D. Pedro II. Este grupo de ruas também faz parte da área comercial velha do centro da cidade, mantendo sinais inequívocos de uma transição entre o antigo e o contemporâneo.
A estação ferroviária é sem dúvida alguma, o principal marco de referência da face sul desses morros, principalmente o da Providência, marcado pela antiga pedreira de São Diogo, ao lado das plataformas de embarque da estação.
O próximo morro é o do Pinto, separado da Providência pela rua da América e pelo conjunto de elevados da Linha Lilás. Sua face sul acompanha a via férrea e as oficinas do Metrô, ao longo das ruas Nabuco de Freitas e Moreira Pinto até a rua Pedro Alves, na encosta oeste, rua que se liga ao bairro de Santo Cristo. A rua Pedro Alves, até os anos 80, uma importante artéria comercial e de serviços (principalmente de artefatos de ferro) está se deteriorando rapidamente por conta da expansão da FavelaMoreira Pinto, onde novos ocupantes ao invadirem os antigos prédios da Pedro Alves criam um fato jurídico de difícil e dispendiosa solução.
Face sul dos Morros da Conceição, Livramento e Providência.
O conjunto arquitetônico e as funções urbanas apresentam-se sem grandes clivagens, neste trecho que vai da rua do Acre, no sopé do Morro da Conceição, até a estação ferroviária, cortando a rua Camerino e correndo paralela à rua Barão de São Félix. Nelas estão misturados velhos prédios, típicos do século passado, com a loja comercial em baixo e o sobrado, que servia de moradia (alguns atualmente tornaram-se depósitos ou escritórios). As características do formato da malha de terrenos (estreito e longos), também estão relativamente mantidas.
A transição para o contemporâneo pode ser sentida, por exemplo, pelo encaixamento de alguns prédios institucionais da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel), que marca um interessante contraponto com a arquitetura anterior. É uma área predominantemente comercial, onde se mescla o setor de atacado e o varejista de produtos orientados para a população de baixa renda, além de abrigar também, um segmento voltado para os calafates, com muitas lojas de produtos de revestimento de pisos e lojas de aluguel de máquinas de raspagem de assoalhos. É importante lembrar, que apesar de se caracterizar pelo comércio, a área ainda abriga um razoável contingente de moradores nos sobrados e em vilas, onde se misturam os descendentes das antigas famílias portuguesas e migrantes brasileiros, principalmente nordestinos, que se estabeleceram após 1950.
Outra função importante refere-se às enormes instalações da seita evangélica Deus é Amorna rua Senador Pompeu com Leandro Martins, onde as atividades religiosas e de assistência desenvolvem-se durante todos os dias da semana.
No trecho próximo a rua Bento Ribeiro, que faz a ligação com o túnel João Ricardo, os quarteirões cruzados pelas ruas Barão de São Félix e Senador Pompeu, as funções comerciais de venda de doces e lojas de calafates, passam a dividir espaço com a prostituição feminina que ocorre principalmente na praça da estação ferroviária e no terminal rodoviário Américo Fontenele, de onde saem os ônibus para os municípios da Baixada Fluminense. Alguns hotéis de alta rotatividade de baixo preço estão ali localizados.
A avenida que limita a parte sul deste trecho é a Marechal Floriano, rua comercial típica do centro da cidade e onde se localizam a atual representação do Ministério das Relações Exteriores no Rio de Janeiro, o antigo Palácio do Itamaraty e a sede da Ligth, companhia de distribuição de energia elétrica para a cidade do Rio de Janeiro.
No lado sul, a principal via de acesso aos Morros da Providência/Livramento é a Ladeira do Faria que termina na Praça Américo Brum, onde se liga à Ladeira do Barroso, via de acesso pelo lado do cais do porto. A praça marca nitidamente a divisa entre os morros do Livramento e Providência.
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E possível perceber que na encosta sul do conjunto Providência/ Livramento a composição social muda bastante, à medida em que se desloca na direção da encosta próxima da estação ferroviária. Foi neste trecho, na encosta do Morro da Providência, que surgiu a primeira favela na cidade do Rio de Janeiro e também foi ali, na rua Barão de São Félix que ocorreu a grande demolição do famoso cortiço Cabeça de Porco, para dar lugar às obras de abertura do túnel João Ricardo, ambas no início do século.
As construções são mais mal construídas e nas fachadas, quase não aparecem os santos de devoção, entronizados em azulejos na maioria das casas da Ladeira do Livramento e do Barroso, no lado da face do cais do porto.
Na parte dos fundos da estação ferroviária corre a rua Rego Barros, que faz a ligação entre a rua da América, no Santo Cristo e a Senador Pompeu, que atravessa a praça da estação e passa a margear a via férrea. Uma das entradas para o Morro da Providencia se encontra ali (parece ser a mais íngreme e é a área mais pobre do morro), situada ao lado da garagem de ônibus da viação São Silvestre, que ocupou a base da antiga pedreira de São Diogo. O eixo formado pelas ruas Rego Barros e Senador Pompeu torna-se intransitável a partir das 16:00 em virtude do estacionamento dos ônibus “piratas” que fazem o transporte ilegal entre o centro do Rio de Janeiro e dezenas de bairros situados na periferia dos municípios da Baixada Fluminense.
Face sul do Morro do Pinto
A homogeneidade é a tônica do morro do Pinto, tanto em termos arquitetônicos, quanto em composição social. Predominam famílias de descendentes de portugueses. Na partes mais altas, alcançadas pelas ruas Sara (pelo norte) e Monte Alverne (pelo sul), onde está a igreja de Monte Serrat, a predominância de habitações familiares é facilmente percebida e a arquitetura é marcada pelo estilo popular que vogava no final do século passado. O processo de sucessivas reformas de fachadas e de telhados também é sentido, mas não com a intensidade percebida no Morro da Conceição.
O sopé da porção sul do Morro do Pinto corre junto à via férrea e a rua que o compõe chama-se Nabuco de Freitas, o comércio incipiente restringe-se a oficinas mecânicas e alguns depósitos de sucatas. Sua continuação é a rua Moreira Pinto que se liga ao trecho final da rua Pedro Alves, próximo a avenida Francisco Bicalho.
Até ao início da década de 70, num terreno que contorna um pontão rochoso, situava-se uma usina de refino de açúcar (importante ícone da paisagem urbana carioca dos anos 50 e 60), atualmente desativada e ocupada pela garagem de uma grande locadora de automóveis. Na encosta mais suave do pontão rochoso localiza-se a Favela Moreira Pinto, com a face voltada para a avenida Francisco Bicalho e estação ferroviária da Leopoldina, e que já se mostra em plena expansão para a face noroeste do Morro do Pinto onde está situada a rua Pedro Alves.
Conclusões
Algumas considerações interessantes podem ser levantadas ao final dessa caracterização espacial. A primeira delas refere-se ao sempre aludido caráter homogêneo da área portuária. Tal alusão, somente poderá ter foros de verdade se levarmos em consideração algumas questões históricas e de escala espacial.
A afirmação sobre uma possível homogeneidade espacial entre os bairros da Saúde e Gamboa, pode fazer sentido após o século XX, em consequência do aterramento do trecho que comportava a antiga e sinuosa linha de costa, com a remoção dos marcos definidores das antigas fronteiras e a transformação desse aterro em espaço institucional portuário. Mas mesmo assim, alguns logradouros ainda podem determinar esses antigos limites, como é o caso da rua Camerino e de sua extensão no aterro (rua Barão de Tefé), demarcadora do limite da Prainha com o Saco da Gamboa e que separava também espaços funcionais distintos, de um lado (Prainha) o porto de carga geral de longo curso, do outro (Gamboa) o espaço do comércio de escravos e da cabotagem da baia da Guanabara, que fazia a ligação entre a cidade e o recôncavo da Baixada Fluminense. Assim como a rua da América e sua projeção aterrada (Av. Professor Pereira Reis) marcam a linha divisória entre Gamboa e Santo Cristo.
Além disso, cada morro que referencia a área, possui suas peculiaridades, podendo até apresentar uma certa homogeneidade na escala local, como no caso do Conceição e Pinto, mas pode-se argumentar que, no conjunto Livramento/Providencia, essa noção de semelhança já se torna muito mais difícil de ser encontrada, a não ser em subespaços muito limitados.
Uma outra questão a ser analisada vincula-se aos processos de alteração funcional por que estão passando os bairros da região portuária nos últimos anos, em virtude das grandes modificações que aconteceram nos procedimentos logísticos que regem as atividades portuárias na atualidade.
É interessante verificar que a ampliação do uso do container a partir dos anos 80, gerou modificações espaciais importantes nos portos em todo o mundo, e que no caso do Rio de Janeiro, criou um processo de esterilização de grandes áreas de armazéns junto à faixa do antigo cais, resultado da incompatibilidade entre o espaço anteriormente construído e os novos mecanismos de estocagem referenciados aos containeres.
As novas áreas que foram estruturadas para este fim, situam-se no bairro do Caju e estão associadas também às atividades de exportação de automóveis, procedimentos que implicam em grandes áreas pavimentadas e descobertas e pouco demandantes de mão de obra.
Portanto, embora seja reconhecida como zona portuária, nossa área de análise passa por um forte processo de esterilização funcional, que fatalmente alterará sua composição social, anteriormente apoiada em famílias, cuja fonte de sustento principal vinha dos empregos portuários. Tendo em vista que este seja um processo muito recente, ele é também muito rápido e reveste-se de características de irreversibilidade.
Exemplos dessa mudança podem ser sentidos pelo projeto da Prefeitura para criação de um grande conjunto habitacional na área do antigo pátio ferroviário de transferências de cargas da Gamboa e pelo planejamento de reurbanização da faixa portuária junto a Praça Mauá organizada pela Companhia Docas do Rio de Janeiro.
Neste sentido, é adequado considerar que em curto prazo, parte da população desses bairros poderá sofrer transformações em sua composição social, embora ainda seja cedo para especulações maiores.
O exemplo da polêmica sobre o Museu Guggenheim foi talvez a mais notável, mas de maneira alguma a mais importante, pois a área portuária é muito maior do que o espaço reservado ao controverso projeto. No caso do museu, o maior problema esteve na relação custo- benefício, que não foi muito bem equacionada pela Prefeitura, parecendo ser um gasto enorme e imediato, para uma vaga sensação de potencial, que pode muito bem não se confirmar em uma cidade de grande porte como o Rio de Janeiro, com muitos espaços culturais ainda subtilizados.
Finalmente, existe a questão da preservação, se não de grande parte dos bairros, pelo menos de áreas específicas, ou de conjuntos arquitetônicos relevantes (Fortaleza da Conceição e a igreja de São Francisco da Prainha são dois exemplos interessantes, o primeiro por estar preservado e o segundo por não estar).
Por outro lado, a Prefeitura busca canais de financiamento para reformas de fachadas das residências de algumas ruas consideradas como referência histórica e, juntamente com instituições francesas de planejamento urbano de áreas historicamente relevantes, tenta viabilizar convênios de acompanhamento deste tecido urbano característico.
O morro da Conceição e certos espaços da Gamboa estão nestes casos. Desconhece-se se tais processos serão bem absorvidos pela população moradora, que pode temer por modificações nos níveis de impostos no futuro, se a área tornar-se muito atrativa em termos imobiliários, como ocorreu em espaços históricos que sofreram reurbanizações em diversas escalas tanto no Brasil (Recife, São Luís e Salvador) quanto no exterior (Buenos Aires, Nova York, Londres, Paris e Berlim).
Bibliografia
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