A GEOGRAFIA DO IBGE: OS MESTRES FORMADORES*
Roberto Schmidt de Almeida
Introdução
O presente trabalho enfoca o processo de estruturação da área de pesquisa geográfica no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, situado na cidade do Rio de Janeiro, ocorrido no final dos anos 30 e início dos 40, além do seu desenvolvimento, que se estendeu pelas décadas posteriores.
No campo do Pensamento Geográfico, serão analisadas as principais mudanças de orientação metodológica e técnica por que passaram as matrizes de pensamento científico do órgão, sob influencia das escolas francesa, alemã e anglo-saxônica.
Acompanharemos as trajetórias profissionais, tanto dos mestres formadores, quanto de alguns dos pesquisadores que compuseram, o que normalmente denominamos, as primeiras gerações de pesquisadores de Geografia e que se tornaram líderes acadêmicos no período entre 1950 e 1980.
A Estruturação das Áreas de Geografia, Geodésia e Cartografia no IBGE
Geografia
O primeiro contato oficial entre o que se convencionaria chamar de Geografia Brasileira e a União Geográfica Internacional (UGI) aconteceu em 1931, durante o Congresso Internacional de Geografia realizado em Paris.
Nosso delegado, enviado pela Academia Brasileira de Ciências e Sociedade Brasileira de Geografia, foi o Prof. Alberto José de Sampaio, naturalista especializado em Fitogeografia, pesquisador do Museu Nacional e autor de várias obras sobre a vegetação brasileira (Correia Filho, 1949). Sua atuação brilhante no Congresso foi muito apreciada por Emmanuel De Martonne, diretor do Instituto de Geografia da Universidade de Paris e Presidente do Congresso e Secretário Geral da UGI.
O resultado de suas articulações com De Martonne, culminou com a visita do Geógrafo francês ao Rio de Janeiro em 1933. Visita que objetivou dois campos, o primeiro, na área da pesquisa de Geografia Física, onde De Martonne percebeu o enorme potencial de trabalho em Geografia Tropical que o Brasil apresentava. O segundo, de caráter político-cultural, ao encorajar as principais associações culturais da área (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Sociedade Brasileira de Geografia e Academia Brasileira de Ciências) ajuntarem esforços na adesão do Brasil à UGI.
A criação de um comitê instituído por essas instituições revelou- se ao longo do ano de 1934, uma tarefa muito além da capacidade administrativa e financeira desse grupo. Os esforços da Academia Brasileira de Ciências acabam sendo dirigidos ao então Ministro da Agricultura Odilon Braga, indicando que os serviços estatísticos e geográficos desenvolvidos no ministério (Diretoria de Estatística da Produção) encaixavam-se perfeitamente nas atividades da nova ciência geográfica. Percebendo ali um excelente ponto de iniciação de um órgão governamental que poderia no futuro, tornar-se uma instituição responsável pela Geografia brasileira (Almeida, 2002).
Esta percepção por parte dessas instituições e de alguns setores do novo governo estava vinculada ao entendimento de que o planejamento territorial (cartografação e normatização das divisões territoriais entre Estados e Municípios) seria uma das principais atribuições de um órgão nacional de Geografia que, necessariamente, teria de pertencer ao governo central.
Foi neste contexto, que as anteriores articulações dos ministros Juarez Távora e Francisco Campos, juntamente com Mário Augusto Teixeira de Freitas, são iniciadas em 1931 e ampliadas em 1933, no sentido de organizar um instituto de estatística em escala nacional estavam, paralelamente, tomando forma através do decreto 24.609 de 06/07/1934 (IBGE, 1952) que defina a criação do Instituto Nacional de Estatística, processo longo e complexo que somente torna-se realidade em 29 de maio de 1936 com sua instalação solene no Palácio do Catete (Almeida, 2002).
Durante a primeira metade da década de 30, não se cogitava claramente de uma vinculação entre a Geografia e a Estatística, mas esse quadro se altera na segunda metade, quando se constata que os serviços de cartografação da rede municipal brasileira eram precários, e que para o planejamento da campanha censitária de 1940 seria necessário possuir uma base cartográfica homogênea e de melhor precisão. E justamente neste contexto que as antigas pretensões da Academia Brasileira de Ciência voltam a ser cogitadas. Mas, para que isto acontecesse, seria necessário formar profissionais especializados através de cursos superiores de Geografia.
Para isso, primeiramente foi constituído em 1934/35 um curso de Geografia na Universidade do Distrito Federal (UDF), que contava com professores brasileiros como Delgado de Carvalho, os irmãos Raja Gabaglia e do pesquisador francês Pierre Defontaines (Schwartzmann, Bomeny e Costa, 2000) transferido da Universidade de São Paulo (USP). Foi desta primeira turma que foi formada o núcleo inicial dos estudos geográficos no Conselho Brasileiro de Geografia (CBG), logo depois transformado no Conselho Nacional de Geografia (CNG), que juntamente com o novo Conselho Nacional de Estatística (CNE) formaram o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Portanto, nada mais conveniente do que a agregação dos serviços geográficos/cartográficos ao novo instituto que iria ter ramificações espaciais até a escala municipal.
Essa relação entre a necessidade de planejamento territorial para as tarefas da Estatística e a ampliação da Geografia acadêmica desenvolvida na Universidade, gerou as condições de criação de um órgão oficial de Geografia, que viria inicialmente a ser cogitado, após cinco reuniões técnicas realizadas no Itamarati sob a tutela do Ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares no final do ano de 1936 (Almeida, 2002).Este ciclo de reuniões contou com as presenças de representantes das mais importantes instituições que direta ou indiretamente, possuíam vínculos com a Geografia, Geodésia e Cartografia. A Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Diretoria de Navegação da Armada, Serviço Geográfico do Exército, Serviço Geológico e Mineralógico, Colégio Pedro II (Catedráticos de Geografia), Observatório Nacional, Arquivo Nacional, Clube de Engenharia, Serviço de Limites do Itamarati, Universidade do Distrito Federal (Catedráticos de Geologia, Paleogeografia e Cartografia), Estado Maior da Armada, Estado Maior do Exército, Instituto de Educação (Catedráticos de História e Geografia), Museu Nacional, Escola Politécnica do Rio de Janeiro (Catedráticos de Geologia), Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, Ministério da Viação (Chefia de Gabinete) e Ministério da Agricultura (Diretoria de Estatística Territorial).
Em 24 /03/1937 foi baixado o decreto 1.527 (IBGE, 1952) que instituía o Conselho Brasileiro de Geografia (CBG) incorporado ao Instituto Nacional de Estatística e autorizando sua adesão à União Geográfica Internacional. Essa instrução foi referendada pela Junta Executiva Central do Conselho Nacional de Estatística no dia 16/06/1937 através da Resolução n. 15 (Gonçalves, 1995).
No dia 01/07/1937 o CBG foi solenemente instalado no salão de conferências do Itamarati e iniciado os trabalhos de sua Assembleia Geral.
Em 26/01/1938 o decreto 218 finalmente define a autonomia dos dois conselhos de Estatística e Geografia, agora com novos nomes (Conselhos Nacionais de Geografia e Estatística – CNG e CNE) e sob a tutela do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Gonçalves, 1995).
O primeiro grande trabalho do CNG inicia-se em 1938 com o Decreto-Lei 311 (IBGE, 1952) que ficou conhecido como a Lei Geográfica do Estado Novo. Objetivava redefinir a estrutura de limites dos distritos e municípios para dar conta de dois problemas.
Organizar espacialmente as malhas distritais e municipais, definindo os parâmetros mínimos em termo de área e de tamanho populacional, para dar garantias ao princípio da “autonomia municipalista”. Isto é, evitar o fracionamento excessivo dos municípios, evitando unidades sem as mínimas condições de sustentabilidade.
Contar com um mapeamento, em escala de detalhe, de todos os municípios brasileiros para estruturar os trabalhos de campo do futuro censo de 1940 e contar com informações cartográficas que dessem suporte aos trabalhos de mapeamento da carta do Brasil ao milionésimo. Neste contexto, estavam também os estudos sobre determinação de áreas urbanas e rurais.
Os municípios teriam de apresentar seus mapas municipais até o final do ano de 1939, enviando uma cópia para o IBGE, que o utilizaria no planejamento de organização dos setores censitários do censo de 1940 (Penha, 1993).
O processo de cumprimento da Lei Geográfica durante os anos de 1938 e 1939 envolveu praticamente todo o efetivo do IBGE no auxílio técnico aos municípios e a tarefa foi totalmente cumprida em março de 1940, em tempo de contar-se com esses mapas nas operações censitárias de 1940. A entrega solene foi realizada em Curitiba, com uma exposição dos mapas, que contou com a presença de Getúlio Vargas (Almeida, 2002).
A partir do início dos anos 40, os estudos geográficos, que haviam sido ensinados pioneiramente, entre 1935 e 1939, na Universidade do Distrito Federal (UDF) por Pierre Deffontaines, passaram a ser orientados por profissionais como Francis Ruelan, tanto na Universidade do Brasil (UB), quanto no próprio IBGE e posteriormente por Leo Waibel, Preston James, Clarence Jones e Pierre Dansereau (Bernardes, 1982). Esses estudos enfocavam os processos fisiográficos e de ocupação econômica do território e formaram a base acadêmica da estruturação profissional das primeiras gerações de geógrafos do IBGE (Bernardes, 1982).
Outras atividades, na época, denominadas de geográficas, foram ao longo do tempo se especializando e tornando-se autônomas e assumindo campo próprio com no caso da Geodésia e da Cartografia.
Geodésia
O decreto 327 de 02/02/1938 estabeleceu as ações de normatização da área de Geodésia do IBGE para suprir o mapeamento do Recenseamento Geral de 1940 (IBGE, 1952).
Sob a responsabilidade do engenheiro Allyrio Hugueney de Mattos, chefe do Serviço de Geografia e Estatística Fisiográfica, em 1939 foram iniciados os trabalhos de levantamento das coordenadas geográficas das cidades brasileiras, prosseguindo com a estruturação das redes planimétrica, altimétrica e gravimétrica, que estabeleceram as bases para o mapeamento sistemático do país, realizado e organizado pela área de Cartografia, que além de coordenar o Sistema Cartográfico Brasileiro, imprime continuamente cartas nas seguintes escalas:
1: 1 000 000, 1: 250 000, 1: 100 000,1: 50 000, e 1: 25 000, sendo também responsável pela elaboração cartográfica dos Altas do IBGE (Almeida, 2002).
Os trabalhos das equipes de Geodésia foram divididos em três grandes conjuntos de medições: a planimetria, a altimetria e a gravimetria.
A Planimetria
A planimetria que estabelece as medições das superfícies planas do território. É através dela que se estabelece o sistema de coordenadas geográficas (latitude e longitude), que geram as linhas de limites entre áreas (Distritos, Municípios, Estados e Países).
Os levantamentos planimétricos, eram inicialmente medidos através equipamentos de curto alcance visual, os teodolitos e os taqueômetros que medem distâncias e ângulos. Formando uma grande rede de polígonos que serviam de base para o cálculo de áreas. Esse levantamento era feito por terra e levavam-se anos para cobrir as grandes extensões do território brasileiro.
Atualmente as medições planimétricas são estabelecidas por um sistema de satélites artificiais chamado Sistema de Posicionamento Global (GPS) e são controlados por equipamentos de recepção de GPS de alta precisão.
A Altimetria
A altimetria estabelece as medições de altitude do relevo terrestre e relação a um plano de referência determinado pelo nível do mar. Por sua vez, a determinação do nível médio do mar é definido por instrumentos de medição maregráficos situados em estações localizadas no litoral. O primeiro plano de referência (datum) oficial do nível do mar brasileiro, foi estabelecido pelo mareágrafo de Imbituba, no litoral de Santa Catarina em 1945 e em 1946 foi estabelecida a conexão com o mareágrafo de Torres no Rio Grande do Sul para o estabelecimento do Nível Médio do Mar.
Definido o nível de referência, se iniciou em 1945 os trabalhos de determinação de nivelamento da Rede Altimétrica do Brasil, que após 35 anos de ajustamento manual das observações de altidude, passou na década de 80, a contar com o suporte da informática na configuração dos cálculos de nivelamento do território brasileiro.
A Gravimetria
As medições gravimétricas são fundamentais para que se estabeleça com precisão a medição geodésica (forma e dimensões do geóide Terra), além de auxiliar no estudo das configurações das estruturas geológicas (camadas internas da Terra) e da Geofísica (prospecção mineral).
Sendo o planeta Terra um geóide dotado de uma camada líquida superficial de grandes dimensões (oceanos) e de uma composição plástica interna (magma) composta por uma mistura de minerais em estado de fusão. Sua crosta não se apresenta homogênea em termos de prospecção da gravidade, isto é em alguns lugares da Terra, a força da gravidade é maior do que em outros. Essas anomalias alteram as medições de altitude e exigem um monitoramento especializado através da rede GPS (Global Position System).
Os estudos de gravimetria passaram a ter um caráter sistemático na década de 90, quando o IBGE estabeleceu uma rede de mais de 18 000 estações gravimétricas em todo o território.
Essas atividades servem de base para que o sistema cartográfico brasileiro possa gerar mapas de grande precisão para vários objetivos.
Cartografia
A incumbência legal de coordenar o Sistema Cartográfico Brasileiro dá ao IBGE um forte poder normativo no que tange à Cartografia brasileira, pois são seus técnicos que definem as políticas cartográficas, seus parâmetros metodológicos e as escalas de representação dos trabalhos cartográficos. É também o IBGE, juntamente com as demais forças armadas, quem determina os diferentes tipos de cartas especiais de trabalho que servem de base para essas organizações militares.
Outro importante papel da área cartográfica é o da definição precisa dos limites entre as principais unidades territoriais legalmente vigentes no país, tanto na escala municipal, quanto na estadual. Em caso de litígios entre essas unidades, cabe aos cartógrafos do IBGE determinar os novos limites, que normalmente são arbitrados pelo poder judiciário, levando em consideração as negociações entre as partes, negociações que podem ficar no terreno dos acordos entre os respectivos poderes executivos (prefeituras ou governos estaduais) ou que podem alcançar a sociedade sob a forma de plebiscitos.
E também atribuição da área dar apoio técnico às operações de mapeamento das Bases Operacionais Geográficas dos censos, principalmente oferecendo suporte técnico às Prefeituras que não possuam pessoal qualificado para a confecção dos mapas.
Nos tempos atuais, na faixa intermediária entre a Cartografia e a Informática, encontra-se o campo das operações de Geoprocessamento, que estabelecem a produção de bases digitalizadas visando o georeferenciamento de pontos e linhas que determinam limites entre áreas (setores censitários, distritos, municípios, unidades federadas), componentes da infra-estrutura (estradas, ferrovias, linhas de transmissão) e aspectos do meio físico (relevo, hidrografia, vegetação), informações que servem de suporte para mapeamentos automatizados mais ou menos sofisticados, que são atualmente usados em organização de atlas e na construção de sistemas geográficos de informações de variados níveis de detalhamento e de sofisticação no que se refere às estruturas de bancos de dados ( que vão de informações alfa- numéricas simples à complexas imagens e sons em tempo real, que podem ser inter-relacionadas internamente no banco ou capturadas em outros bancos através da rede Internet).

Os Pioneiros Mestres Estrangeiros na Formação da Geografia do IBGE no Rio de Janeiro
Desde o inicio dos anos 30, que a ideia de criação de um órgão que pudesse coordenar as atividades concernentes às atividades geográficas e que, paralelamente, auxiliasse na criação de um curso oficial de formação de professores e pesquisadores em Geografia, estava sendo maturada. Na ocasião, dois importantes grupos dedicavam-se a esta tarefa, a Academia Brasileira de Ciências sob a liderança de Alberto José Sampaio e o grupo de estatísticos do governo federal liderados por Mário Augusto Teixeira de Freitas.
O naturalista e botânico Alberto José Sampaio, ao participar em 1931 do Congresso Internacional de Geografia patrocinado pela União Geográfica Internacional em Paris (Correia Filho, 1949), pode entabular negociações com a diretoria da UGI, que garantiram a visita, em 1933, do Secretário Geral da UGI, o Professor Emmanuel De Martonne. A visita de De Martonne ao Brasil marcou uma etapa importante, pois foi através de sua influência nos meios acadêmicos franceses, que possibilitou a vinda de professores recém-doutorados, ou em fase final de doutoramento para organizar os cursos formais de Geografia em São Paulo (1934) e no Rio de Janeiro (1935).
No processo de implantação do curso do Rio de Janeiro, na então Universidade do Distrito Federal (UDF), a participação de Mário Augusto Teixeira de Freitas, agora auxiliado pelo engenheiro Christóvão Leite de Castro, chefe da Seção de Estatística Territorial do Ministério da Agricultura e também aluno da primeira turma do curso de Geografia da UDF, foi de decisiva importância, pois se tratou de, paralelamente ao curso formal, garantir treinamento especializado em pesquisa geográfica a um grupo de estudantes que seriam contratados pelo governo brasileiro para dar início ao embrião do futuro Conselho Nacional de Geografia do IBGE (Almeida, 2002).
O Professor francês Pierre Deffontaines (1894-1978), após um ano em São Paulo e tendo transferido a liderança acadêmica para Pierre Monbeig (1908-1988), muda-se em 1935 para o Rio de Janeiro e inicia o curso na UDF e o treinamento paralelo para o grupo organizado por Christóvão Leite de Castro. Nesse grupo estavam, além do próprio.
Christóvão, os futuros geógrafos Orlando Valverde e Fábio de Macedo Soares Guimarães (contratados em 1938), Jorge Zarur (contratado em 1939) e José Veríssimo da Costa Pereira e Lúcio de Castro Soares (contratados em 1940). Deffontaines era um geógrafo completo, tanto em Geografia Física, quanto em Geografia Humana, mas sua preferência era a Humana, explorando detalhadamente o processo de ocupação do território e estudando pioneiramente o incipiente sistema urbano do país (Bernardes, 1982).
O início da Segunda Guerra Mundial em 1939 coincide com a volta de Deffontaines para França, mas já em 1940/41, outro grande professor o vem substituir, Francis Ruellan (1894-1975) que fica 18 anos e praticamente torna-se o grande formador da geração de geógrafos cariocas que atualmente estão com mais de 65 anos. A maior parte da chamada “velha guarda ibgeana” foi formada por Ruellan, que organizava grandes trabalhos de campo na Universidade do Brasil, considerados por seus alunos como verdadeiros cursos especiais. Muito embora os primeiros profissionais do IBGE que iniciaram o grande processo de aperfeiçoamento no estrangeiro tenham sido enviados para os Estados Unidos, em virtude da impossibilidade da ida para a Europa durante os anos da Guerra depois, foram convidados para cursos de aperfeiçoamento e pós-graduação na França (Almeida, 2002).
Paralelamente, em 1942, Jorge Zarur é enviado para a Universidade de Winsconsin onde gradua-se como Master of Arts em 1943 e segue para a Universidade de Chicago para um aperfeiçoamento em pesquisa de campo. Como resultado de seus contatos nos Estados Unidos, em 1945 seguem para lá os cinco geógrafos com o intuito de receberem aperfeiçoamento em técnicas de pesquisa de campo e planejamento regional, onde ficaram entre um e dois anos.
Fábio de Macedo Soares Guimarães e Orlando Valverde na Universidade de Wisconsin; Lúcio de Castro Soares e Lindalvo Bezerra dos Santos na Universidade de Chicago e José Veríssimo da Costa Pereira na Universidade de Northwestern.
Com esse grupo, inicia-se o processo de aperfeiçoamento profissional de alto nível, que ao longo desses 60 anos de atividade de pesquisa geográfica do IBGE, nunca foi interrompido (Almeida, 2002).
Em Wisconsin, Fábio de Macedo Soares Guimarães e Orlando Valverde travam conhecimento com Leo Heinrich Waibel (1888-1951), geógrafo alemão radicado nos Estados Unidos e conseguem através da influência de Christóvão Leite de Castro que o IBGE o contratasse como assistente técnico entre 1946 a 1950. Waibel, apesar de não exercer o papel formal de professor universitário e de trabalhar no IBGE com um grupo restrito de pesquisadores, principalmente em função da barreira da língua (somente se comunicava em inglês e alemão e não em francês que era a segunda língua da maioria dos geógrafos da época), teve uma influência capital nos estudos de ocupação do território, principalmente no monitoramento do processo de colonização agrícola, uma das políticas de governo do Estado Novo de Getúlio Vargas, que foi continuada no governo de Eurico Gaspar Dutra. Seus principais colaboradores no IBGE foram Walter Alberto Egler (o único que na época falava correntemente alemão), Orlando Valverde (que depois, tornou-se o principal divulgador de suas pesquisas), Fábio de Macedo Soares Guimarães, Nilo Bernardes e Speridião Faissol (Almeida, 2002).
Em 1945 o biogeógrafo canadense Pierre Danserau, por conta de um convênio entre os governos canadense e brasileiro também esteve organizando cursos na universidade a convite de Hilgard O’Reilly Sternberg e treinando pesquisadores do IBGE. Seus principais colaboradores foram Walter Alberto Egler, Alceu Magnanini, Edgar Kullmann, Dora Romariz e Alfredo Porto Domingues. Dora e Edgar, entre 1946 e 1947, foram também estudar no Canadá (Almeida, 2002).
Dos americanos, Clarence Jones e Preston James foram os que mais trabalharam com o tema colonização, por ocasião de suas estadas no Brasil (1948 e 1949 respectivamente). Jones foi o orientador de um trabalho de campo no Pantanal Mato-grossense e escreveu o artigo “A Fazenda Miranda em Mato Grosso” publicado na RBG 12 (3), jul./ set. 1950. Entre os anos de 1950 e 1951 o professor e pesquisador norte americano Preston James trabalhou no IBGE, orientando trabalhos sobre colonização e habitat rural. Seu principal orientando foi Speridião Faissol, posteriormente convidado para o doutoramento na Universidade de Syracuse no estado de New York, onde Preston James era professor. Faissol doutorou-se em 1956 (Almeida, 2002).
No final dos anos 50, após o grande sucesso do XVIII Congresso Internacional de Geografia da UGI, realizado em 1956 no Rio de Janeiro, outro grande pesquisador francês em redes urbanas, Professor Michel Rochefort passou a vir constantemente ao Brasil e dar consultoria ao IBGE, além de incentivar a ida de muitos pesquisadores brasileiros para cursos de aperfeiçoamento e pós-graduação em universidades francesas. Sua linha de estudos calcada no uso mais sistemático das estatísticas imprimiu um novo enfoque nas pesquisas do IBGE, que passou a dedicar boa parte dos estudos aos fenômenos da urbanização e industrialização brasileiras (Almeida, 2002).
Com Rochefort, os antigos alunos dos mestres das décadas de 30, 40 e 50 tornaram-se os líderes acadêmicos da Geografia do IBGE e já não faziam mais o papel de treinandos e sim de colegas de pesquisa, inclusive auxiliando a terceira geração de profissionais que ingressou no IBGE no final dos anos 50 e na década de 60.
Referências Bibliográficas
ALMEIDA, Roberto Schmidt de. A Geografia e os Geógrafos do IBGE no Período 1938-J998. Rio de Janeiro, 2000, p.712, Tese (Doutorado em Geografia), Programa de Pós-Graduação em Geografia, UFRJ/IBGE, 2002.
BERNARDES, Nilo. A Influência Estrangeira no Desenvolvimento da Geografia do Brasil. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, v.44, n.3, p. 519-527, jul./set. 1982.
CORREIA FILHO, Virgílio. Alberto José de Sampaio, Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, IBGE, v. 11, n.2, abr./jun. 1949, p. 263-266.
GONÇALVES, Jayci de Mattos Madeira. IBGE: um retrato histórico. Rio de Janeiro, IBGE, 1995, p. 61, (Documentos para Disseminação. Memória Institucional n. 5).
IBGE. Coletânea de Leis e Decretos Relativos ao Conselho Nacional de Geografia. Rio de Janeiro, IBGE, 1952, p. 92.
PENHA, Eli Alves. A Criação do IBGE no Contexto da Centralização Polítuca do Estado Novo. Rio de Janeiro, IBGE, 1993, p. 123, (Documentos para Disseminação. Memória Institucional n. 4).
SCHWARTZMANN, Simon, BOMENY, Helena M.B., COSTA, Vanda M.R. Tempos de Capanema. Rio de Janeiro, FGV/Paz e Terra, 2000, 2ª ed. p. 435.

Resumo:
O trabalho descreve os papéis que alguns profissionais desempenharam na estruturação dos estudos geográficos do IBGE, agência de planejamento territorial do governo federal criada em 1938, no Rio de Janeiro, que coordenou o processo de reconhecimento territorial do Brasil e acompanhou os processos de ocupação humana e econômica do país. Foram analisados diferentes perfis de profissionais da Geografia Física e Humano-Econômica que trabalharam no IBGE e orientaram a formação profissional de várias gerações de geógrafos brasileiros.
Palavras-Chave: Geografia do Brasil; geógrafos; planejamento regional; IBGE.
Abstract:
The work describes the papers that some professionals carried out in the structuring of the geographical studies of IBGE, agency of the government’s federal maid territorial planning in 1938, in Rio de Janeiro, that coordinated the process of territorial recognition of Brazil and it accompanied the processes of human and economical occupation of the country. They were analyzed professionals’ of the Geography different profiles that worked in IBGE and they guided the professional formation of several generations of geographers.
Key-words: Brazilian Geography; geographers; regional planning; IBGE.* Comunicação apresentada na Sessão Ordinária de 8 de março de 2007.